Fossil poetry

Também na oficina desta quarta-feira os alunos foram provocados a sublinhar nos livros trechos que pudessem ser perturbados pelo ato de grifar. Foi Waly Salomão que no seu último livro de poemas reproduziu a página com um de seus sublinhados num livro de Ralph Waldo Emerson que dizia que language is fossil poetry. São dele, Waly, os grifos que se expõem na Biblioteca-Parque Estadual, no centro da cidade do Rio, desde a última semana. E são para ele sem o saberem os grifos que estes alunos inscreveram em alguns livros circulantes.

Marcelly Firmino

Marcelly Firmino

Paulo Santana

Paulo Santana

Priscila Faria

Priscila Faria

Samara Kister

Samara Kister

Thalia Melo

Thalia Melo

Vinicius Araújo

Vinicius Araújo

Vitor Hugo

Vitor Hugo

Beatriz Hermes

Beatriz Hermes

Beatriz Lima

Beatriz Lima

Beatriz Lima

Beatriz Lima

Eduarda Assunção

Eduarda Assunção

Isabela Gama

Isabela Gama

Iuli Duarte

Iuli Duarte

Juliana Rodrigues e Ygor Macedo

Juliana Rodrigues e Ygor Macedo

Larissa Costa

Larissa Costa

Luanna Rodrigues

Luanna Rodrigues

Anúncios

Com a sua licença

Quanto tempo dura um luto? O quanto um luto incapacita alguém para o trabalho? O quanto tornar-se pai requer a suspensão das atividades profissionais para que se possa trabalhar o pai nascendo em si? Que dor de barriga, dor na coluna ou filho doente são páreo para o apaixonado que adoece de amor? Mas se adoece de amor? Quais licenças são necessárias para contemplar os estados de exceção em que as circunstâncias da vida lançam o trabalhador? Qual é, diante dos imprevistos da vida, o trabalho necessário para que se continue trabalhando, mesmo que para tanto seja necessário interromper por um tempo o tempo de trabalho? Na oficina de hoje, instituíram-se licenças. E se a licença poética põe a perder o tanto de poético que não pede licença para acontecer, assim também a licença de trabalho põe a perder o tanto de trabalho que há em perna quebrada, crise de labirintite, transtorno pós-traumático. E por isso, que se reescrevam as licenças, para que a lei, que torna visível o que não se vê, dê a ver as urgências que teimam em ser adiadas pelo trabalho, como se trabalho não fossem.

Licença aos pedaços
Artigo único. Fica instituído o direito de licença por tempo indeterminado à pessoa que precisa consertar os pedaços do coração.

Licença querido avô
Artigo único. Caso a pessoa possua um avô ou uma avó que tenham o dom de contar longas histórias no horário antes do almoço, assegura-se por este decreto o direito a se atrasar levemente a compromissos legais ou ao local de trabalho, a fim de garantir que a pessoa ouça a lorota até o final.

Licença-medo
Artigo único. Toda vez que a pessoa sentir medo de algo ou principalmente de viver, torna-se isenta de praticar qualquer atividade à qual esteja submetida, inclusive a de se levantar da cama.

Licença-recomeço
Artigo único. Fica estabelecido que todo indivíduo terá o direito a sonhar acordado com os sorrisos e palavras doces dos novos amores por quanto tempo o amor durar.

Licença-spoiler 
Artigo único. Por meio desta declara-se que qualquer pessoa que tenha tido o coração partido e todos os sonhos e expectativas dizimados por conta de spoiler tem direito a permanecer em casa tempo suficiente para que se emende o coração partido.

Licença-partiu
Artigo único. Qualquer filho tem o direito de frequentar festas mesmo sem a permissão dos pais, inclusive o direito de ir e voltar em qualquer horário e com a roupa que quiser.

Licença para a vida 
Artigo único. Fica decretado que todas as pessoas, sem exceção, têm o direito de viver suas vidas às suas próprias maneiras, inclusive o direito de amar livremente e sonhar.

Licença-paixão 
Artigo único. Toda pessoa que se apaixonar tem direito de se declarar, independentemente de sua orientação sexual, e sem que o amado rompa a amizade já existente com o declarante.

Autores: Eduarda Assunção, Isabela Gama, Iuli Duarte, Juliana Rodrigues, Larissa Costa, Luanna Rodrigues, Marcelly Firmino, Ygor Macedo.

(Hoje o nosso registro difere daquele tempo em que Thiago de Melo escreveu os Estatutos do Homem, mas a insistência em legislar contra a lei jogando com as palavras diz algo acerca do odor autoritário que ambos os tempos do Homem se colocam. Por isso, fica-lhe como homenagem a oficina de hoje.)

Há vagas

A poesia é o patinho feio das artes. Eu sou um patinho feio, e leio poesia. E vocês não são patinhos feios, e vocês não leem poesia? As oficinas de Texto e Cidadania da Oficinada Literária estão mais do que esgotadas, mas as de Texto e Poesia, não. Por isso, até amanhã nós da organização receberemos inscrições para as oficinas do Ismar Tirelli Neto, de manhã, e do Heyk Pimenta, à tarde. Basta enviar nome e turma para oficinadaliteraria@gmail.com e se inscrever para uma oficina no contraturno das suas aulas. O blog do Heyk Pimenta: aqui. Um perfil do Ismar Tirelli: aqui.

O meu namorado | Ismar Tirelli Neto

era muito bonito
lembrava

um boneco de cera
de algum cantor famoso

bonito como alguém que volta
porque esqueceu
que precisa voltar porque esqueceu
(cachecol, luvas)
de comprar água sanitária

ó venha meu amor
respirar ao meu lado as montanhas
azuis ademais
esquecemos de comprar
água sanitária

quem em sã consciência
chamaria isso aqui
de “montanha”

seus lábios – devidamente retificados
por gélidos ventos
de agosto – mudam-se agora
em ventrudo móvel
espécie de canastra

(galgar – galgar a)
dolorosa retratação
dos lábios – o travo
de água sanitária
a cabeça uma zurrada
de sintetizadores
os meus amigos

conversavam na sala que
ver com uma ginasta
que no filme
da sessão de meia-noite
partia-se ao meio
ao aterrissar

sofremos um pequeno acidente
na volta para casa
o carro golpeou uma árvore
mas estamos todos bem

eu buscava a giros
cada vez mais bruscos do molinete
trazer de volta à enseada
os anos defronte

meus dedos soltavam-se
um a um

eu não sentia a mais leve coisa

Meu lugar | Heyk Pimenta

faz alguns anos que virei seu secretário
no começo queria
ser jogador
de azar

e não encaçapava
não carteava
nem tarô

tentei os golpes
mas virei seu secretário

digo residência oficial do bispo do rio de janeiro
digo casa de aborto feto feliz
digo depósito de óleo de fígado de bacalhau

e desligam
minha pequena crueldade

separo as manchetes
compro bilhetes
invento fofocas sobre a concorrência

assim você viaja em paz
queria mesmo ganhar um milhão

Presença

sétimo encontro_presença

Dessa vez a oficina se fez em homenagem a um parágrafo de Jacques Derrida, e basta:

Por definição, uma assinatura escrita implica a não-presença atual ou empírica do signatário. Mas, dir-se-ia, marca também e retém seu ter-sido presente num agora passado, que permanecerá um agora futuro, logo, um agora em geral, na forma transcendental da permanência. Esta permanência geral está de algum modo inscrita, pregada na pontualidade presente, sempre evidente e sempre singular, da forma de assinatura. É essa originalidade enigmática de qualquer rubrica.

(“Assinatura Acontecimento Contexto”, in Limited Inc. Tradução de Constança Marcondes Cesar. Campinas: Papirus, 1991. p. 35.)

Programação da Oficinada

cartaz da oficinada

Na semana que vem acontece a Oficinada Literária, evento que organizo junto com o Tiago Cavalcante e a Bia Petri no Colégio Pedro II. No campus Realengo, já temos programação!

Programação

Oficinas de Texto e Cidadania
Dia 13 de outubro

(Des)construção da notícia de 10h20 às 11h50 | 15 vagas
Oficina ministrada por Aline Sant’Anna. Jornalista, cursa o mestrado em Comunicação na UERJ. Propõe uma oficina de conteúdo livre a partir da análise crítica das mídias de informação.

Oficina da voz de 13h às 14h30 | 15 vagas
Oficina ministrada por Maria Clara Bubna, graduanda em Direito pela UERJ e autora do Manifesto pela Voz ou sobre o Silêncio. Propõe uma oficina que reflita sobre a importância das declarações, textuais ou não, no processo de afirmação pessoal ou política.

Oficinas de Texto e Poesia
Dia 14 de outubro

Ismar Tirelli Neto de 10h20 às 11h50 | 30 vagas
Oficina ministrada pelo poeta Ismar Tirelli Neto, autor dos livros de poesia Synchronoscopio e Ramerrão.

Heyk Pimenta de 13h às 14h30 | 30 vagas
Oficina ministrada pelo poeta Heyk Pimenta, autor de livro de poemas pela Coleção Kraft, da editora Cozinha Experimental, organizador da Oficina Experimental de Poesia, no Imperator, e mestrando em Teoria Literária pela UFRJ.

Informações

Onde será? No auditório do Bloco C.

Quem pode? Alunos do ensino médio.

Quando podem? No contraturno.

Como podem? Enviando o nome e a turma para oficinadaliteraria@gmail.com.

Até quando? Até sexta-feira, dia 10 de outubro.

Pare a investigação agora ou terá problemas

sexto encontro foto 2

Quem fala tem culpa. Quem escreve tem culpa. O culpado do crime, ao enviar uma carta para a polícia, o suicida, ao deixar a carta na gaveta da escrivaninha, o pai, ao ensinar por carta a ética a seu filho, têm culpa. Mas o culpado do crime escreve procurando como sempre ocultar as pistas, abdicando da sua caligrafia, e esquecendo-se de que o ato de escrever e recortar dos jornais (que noticiam os seus crimes) as letras (que comunicam de viés a sua culpa) é a prova de sua existência, é o resto de sua singularidade, é a prova do real. Imaginando-se passar quase invisível como um fantasma, o culpado do crime ainda assim escreve, como quem esquece que em escrever em ato existe corpo, matéria, vida. Não há como escapar à letra. Pois é preciso escrever para comunicar um crime anterior ao crime cometido, um crime que comete quem fala. De nada adianta não confessar a culpa. O crime fala por si. Quem fala mata e muda a realidade. E, dessa vez, foi preciso, com letras e palavras dos jornais dos dias 16 e 17 de setembro de 2014, falar na voz do criminoso, pois assim falar restitui-se como um ato: a prova do real para quem se imagina quase morto.

A carta foi composta por onze alunos do ensino médio, cada um é autor de uma frase.

A carta foi composta por onze alunos do ensino médio; cada um é autor de uma frase.