Morrer com Brás Cubas

Os alunos do ensino médio integrado ao curso técnico de música do Colégio Pedro II, ao lerem o romance de Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, foram desafiados a imaginar musicalmente trechos do livro. Nesse vídeo, um trecho do capítulo I, “Óbito do autor”, em que o narrador descreve a “orquestra da morte”, foi o escolhido:

Agora, quero morrer tranquilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.

A música executada em ambos os vídeos é original.

No segundo vídeo, um trecho do capítulo XLV, “Notas”, em que o narrador expõe as notas (muitas delas sonoras) para um capítulo não escrito, serviu de partitura:

Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites, convidados que entravam. Lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à família, alguns tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d’água benta, o fechar do caixão a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lágrimas da família, e vão até o coche fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as correias, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um… Isto que parece um simples inventário, eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo.

Um aluno diante de uma questão de prova

Tempo e memória, de Joan Brossa

A questão nem chega a ser propriamente literária, pois o que se pede ao aluno é que, após a leitura de “Uma criatura” (que Machado de Assis publicou em 1901 no livro Ocidentais), ele reconheça no poema traços da estética do Romantismo, aproximando-o de alguma das poéticas que se sucederam ao longo das décadas do Segundo Reinado. Estamos em dia de prova e o poema não é propriamente romântico. Uma questão como essa avalia antes a compreensão histórica de uma versão da poesia no Brasil, compreensão suficientemente complexa para que o leitor proponha uma interpretação anacrônica do poema em questão, encarando a história (seja ela qual for, da literatura ou de uma vida) como um palimpsesto. É preciso lidar com os recursos que tem diante de si, em dado momento. E a dificuldade se impõe: eu entendi que o poema, ao apresentar ao leitor a Morte que é a Vida, guarda traços melancólicos do Ultrarromantismo, mas isso não está certo. Não estaria certo porque, como toda aproximação, trata-se de uma imprecisão – afinal, a composição alegórica da criatura remonta a um procedimento caro à obra de Castro Alves, portanto ao Condoreirismo, além de a monstruosidade da vida, ainda que não orgânica, antecipe a poética de Augusto dos Anjos. Como lidar com uma questão imprecisa, com um poema que aponta para todos os lados da história? É imprescindível escolher, e, como em toda escolha, haverá perdas. E, como em toda escolha, haverá um sujeito, pois haverá quem se submeta a uma condição (o sujeito é aquele que está sujeito a alguma coisa) e haverá quem aja (o sujeito não é um objeto). Assim, pouco me importou que pouco de literatura houvesse numa questão como aquela, pois para aquele aluno naquele momento, escolher responder a questão (e assim silenciar sentidos que para ele estavam claros e exigiam palavra) representou aprender que o conhecimento mais objetivo, aquele que é memorizável e quantificável, vai pelo ralo diante da necessidade de escolher. Na escola, o lugar do professor antecede o daquele que ensina o que sabe, que ensina através do que sabe. Pode ser também (o que é mais básico) o daquele que ensina apesar dos saberes. Mas, se não ensina somente o que sabe, o professor ensina mais o quê?

Machado de la Mancha

Em 1988, fotografado por Bud Lee para a revista Mother Jones.

Na virada do século, Carlos Fuentes trabalhava na composição do ensaio Machado de la Mancha, que foi publicado no México em 2001, pelo Fondo de Cultura Económica. Em outubro de 2000, publicou na Folha de S. Paulo “O milagre de Machado de Assis”, no qual defendia que:

As imitações absurdas do período das independências pautavam-se em uma civilização Nescafé: podíamos ser instantaneamente modernos abolindo o passado, negando a tradição. O gênio de Machado reside exatamente no contrário. Sua obra é permeada por uma convicção: não existe criação sem tradição que a nutra, assim como não existe tradição sem criação que a renove. Mas Machado tampouco contava com o respaldo de uma grande tradição novelesca, nem brasileira nem portuguesa. Contava, sim, com a tradição comum a nós, os hispanófonos do continente; contava com a tradição de La Mancha. Machado recuperou-a; nós a esquecemos. Mas ela também não foi esquecida pela Europa pós-napoleônica, a Europa do grande romance realista e de costumes, psicológico ou naturalista, de Balzac a Zola, de Stendhal a Tolstói? E nossa pretensão de modernidade não foi, em toda a Ibero-América, reflexo dessa corrente realista que chamarei de Waterloo, em contraposição à corrente de La Mancha? Em seu livro “A Arte do Romance”, Milan Kundera lamentou, mais do que ninguém, a mudança de rumo que interrompeu a tradição cervantina -retomada por seus maiores herdeiros, o irlandês Laurence Sterne e o francês Denis Diderot- em favor da tradição realista, que Stendhal descreve como o reflexo captado por um espelho avançando ao longo de uma estrada e que Balzac confirma como o concorrente do registro civil. E o convite ao jogo, ao sonho, ao pensamento, ao tempo, exclama Kundera em um capítulo intitulado “A Desprezada Herança de Cervantes”, onde foi parar? A resposta é, se não miraculosa, surpreendente: foram parar no Rio de Janeiro e renasceram na pena de um mulato carioca pobre, autodidata, que aprendeu francês em uma padaria, que sofria de epilepsia, como Dostoiévski, que era míope, como Tolstói, e que ocultava seu gênio sob um corpo tão frágil como o de outro grande brasileiro, Aleijadinho, também mulato, mas além disso leproso, que trabalhava sozinho e somente à noite, para não ser visto. Mas alguém já não disse, falando do Brasil, que o país cresce à noite, enquanto os brasileiros dormem? Machado não. Ele está bem desperto. Sua prosa é meridiana. Mas também seu mistério: um mistério solar, o de um escritor americano de língua portuguesa e raça mestiça que, solitário como uma estátua barroca mineira do realismo oitocentista, redescobre e reanima a tradição de La Mancha contra a tradição de Waterloo. O que entendo por essas duas tradições?

La Mancha e Waterloo
Historicamente, a tradição de La Mancha é inaugurada por Cervantes como um contratempo da modernidade triunfante, um romance excêntrico da Espanha contra-reformista, obrigado a fundar outra realidade por meio da imaginação e da linguagem, da ironia e da mescla de gêneros. Essa tradição é continuada por Laurence Sterne (1713-1768) com seu “Tristram Shandy”, em que o acento recai sobre o jogo temporal e a poética da digressão, e por “Jacques o Fatalista”, de Denis Diderot (1713-1784), em que a aventura lúdica e poética consiste em oferecer, quase que em cada linha, um repertório de possibilidades, um menu de alternativas para a narração.

A tradição de La Mancha é interrompida pela tradição de Waterloo, isto é, pela resposta realista à saga da Revolução Francesa e do império de Bonaparte. A mobilidade social e a afirmação individual servem de inspiração para Stendhal, cujo Sorel lê em segredo a biografia de Napoleão, para Balzac, cujo Rastignac é um Bonaparte dos salões parisienses, e para Dostoiévski, cujo Raskolnikov tem um retrato do grande corso como único adorno de sua mansarda petersburguesa. Romances críticos, é bem verdade, daquilo que os inspira: iniciadas com o crime de Sorel, as carreiras ascendentes da sociedade pós-bonapartista culminam com a falsa glória do arrivista Rastignac e terminam com o crime e a miséria de Raskolnikov.

Entre as duas tradições, Machado de Assis, nascido em 1839 e morto em 1908, revalida a tradição interrompida de La Mancha e permite-nos contrastá-la, de modo muito geral, com a tradição dominante de Waterloo.

A tradição de Waterloo afirma-se como realidade. A tradição de La Mancha sabe-se ficção e, mais ainda, celebra-se como ficção.

Waterloo oferece fatias de vida. La Mancha não tem outra vida afora a de seu texto, feito à medida em que é escrito e é lido.

Waterloo surge do contexto social. La Mancha descende de outros livros.

Waterloo lê o mundo. La Mancha é lida pelo mundo. Waterloo é séria. La Mancha é ridícula. Waterloo baseia-se na experiência: diz o que já sabemos. La Mancha baseia-se na inexperiência: diz o que ignoramos. Os atores de Waterloo são personagens reais. Os de La Mancha, leitores ideais. E, se a história de Waterloo é ativa, a de La Mancha é reflexiva. Tais divisões teóricas podem mostrar-se rígidas, mas as obras mesmas são muito mais fluidas. Por exemplo, uma das características mais notáveis da narração cervantina, a loucura da leitura, origem da ação de “Dom Quixote”, transcende para o plano realista em um romance como “A Abadia de Northanger”; por exemplo, parte da comédia social inglesa de Jane Austen, cuja protagonista, Catherine Moorland, perde o juízo lendo romances góticos; por exemplo, e sobretudo, uma das obras-primas do realismo psicológico, “Madame Bovary”, em que a heroína de Flaubert perde o equilíbrio entre sua realidade social e sua realidade psicológica por ler obras românticas em demasia. E tanto Sorel como Raskolnikov, como já assinalei, são o que são por terem devorado demasiadas páginas sobre a epopéia napoleônica. Mais especificamente, manchego é o fato de um romance saber-se ficção, ser consciente de sua natureza fictícia. “Dom Quixote”, “Tristram Shandy”, “Jacques o Fatalista”, “Brás Cubas”, além de se saberem ficção, celebram sua gênese fictícia. É Dom Quixote em um lugar de La Mancha de cujo nome não quer se lembrar, mas também em uma tipografia de Barcelona em que o personagem de Cervantes visita o lugar mesmo onde sua vida se faz livro, pois Dom Quixote é o primeiro personagem do romance moderno que se sabe escrito, impresso e lido, assim como Tristram Shandy sabe-se escrito por si mesmo, como Brás Cubas sabe que também está sendo escrito por si mesmo, e não por qualquer Brás Cubas, mas por um Brás Cubas morto, que escreve suas memórias no túmulo. Brás Cubas, além disso, pede ser inscrito em uma tradição, a do leitor de “Tristram Shandy”, só que Tristram Shandy, por sua vez, quer-se da tradição de “Dom Quixote”. “Adotei” -diz Brás Cubas do túmulo- “a forma livre de um Sterne”. E Sterne diz, no “Tristram Shandy”, que tomou sua forma “do incomparável cavaleiro de La Mancha, a quem, seja dito de passagem, eu amo mais, a despeito de todas as suas sandices, do que ao maior dos heróis da Antiguidade e por quem mais longe eu iria para fazer uma visita”.

Machado de Assis: minidossiê

No YouTube, o melhor vídeo que conheço sobre a obra do Machado de Assis é o deste programa Mestres da Literatura, com depoimentos muito inteligentes de professores da USP sobre a obra do autor.

Um site indispensável é o machadodeassis.net, concebido pela Marta de Senna, pesquisadora da Casa de Rui Barbosa. Nele, além de uma revista acadêmica dedicada ao autor, encontram-se os romances e alguns contos de Machado anotados quanto a suas referências, alusões, citações etc. 

No endereço machado.mec.gov.br encontra-se toda a obra para download, em edições preparadas por bibliotecas ou universidades públicas.

Além disso, o Cadernos de Literatura Brasileira dedicado ao Machado de Assis, editado pelo Instituto Moreira Salles, está disponível online.

O texto mais horripilante de que você é capaz

Desenho de Victor Hugo

Provoquei meus alunos do ensino médio a comporem um texto que provocasse o medo mais intenso de que fossem capazes, com base no exemplo de Victor Hugo que, em Os trabalhadores do mar, descreve uma criatura horripilante numa passagem inesquecível traduzida pelo Machado de Assis no calor da hora. 

Do resultado, fiz uma colagem. E acho bonito ler os fragmentos como um retrato do imaginário do medo no adolescente de agora, este que está (a)diante de nós com frequência.

*

Não tinha forma, cor ou cheiro, o tal do Amor. Cor de vômito.

Bela, estonteante. Seu guarda-chuva, que agora eu conseguia ver nitidamente, era feito de ossos e escorria sangue esverdeado.

Seu veneno contagia até mesmo os que são de sua espécie se espalhando de forma sutil como o aroma das flores. É conhecida como Mente Humana.

Eis que das sombras – ou quem sabe até da luz – surge uma figura encapuzada. A morte é a certeza do acontecer antes mesmo de se concretizar.

O demônio não era semelhante a nenhum monstro de história de terror cuja aparência é deformada, mas se assemelhava a um homem; contudo, aí acabam as semelhanças.

O amor é um processo químico que ocorre na ínsula, localizada no meio do cérebro. Deve ser considerado um dos mais perigosos tormentos que atingem a população mundial, pois é capaz de ter o controle sobre o nosso corpo e interfere diretamente em nosso dia a dia e pode interferir nas faculdades mentais, gerando um processo de dependência e perda total do controle sobre si.

Olhá-los nos olhos é como encarar a própria morte, neles não há luz, só escuridão e desespero.

*

Vi ontem um bicho na escuridão da cidade.

De sua boca com cor de dor, não saía voz (nunca deixaram que saísse).

O cheiro dele era de guerra, guerra de toda uma vida.

O bicho? Não me viu. Eu? O senti. Como senti a fumaça de seu cachimbo, como senti seu cheiro de guerra diária, como senti que a justiça tem um preço que o pobre não pode pagar.