Poética do professor de literatura

E já que é de entrevistas que se trata, e já que em breve-breve volto à sala de aula depois de uma semana trabalhando a escuta teórica, me lembro da entrevista que fizemos, eu e um grupo de amigos, com o prof. Alfredo Bosi, também publicada no Jornal Rascunho, e na qual se lê uma espécie de poética do professor de literatura, que penso seguir do modo mais aplicado que posso:

Eu percebi que a leitura, uma leitura expressiva, uma leitura empenhada — como se faz numa oração, em que se dá o coração todo naquilo —, é melhor não fazer se você não tem fé. Você tem que ler aquilo com a alma e com certo entusiasmo. Professor de literatura tem que ter certa vitalidade, entusiasmo, não pode ser muito anêmico, tem que ter algum vigor na sua leitura para que ele contamine, no melhor sentido, para que ele chame à vida. Porque tudo transborda para a vida, por isso a literatura acaba sendo, vamos dizer, uma organização da vida, uma formulação dos nossos sentimentos, de nossas experiências, seja ambígua, seja moderna. […] O leitor que entrar em empatia com esses organizadores da experiência, esses estimuladores, certamente terá uma postura diante da vida mais engajada, mais nobre, mesmo quando pessimista. Mais compassiva. Vocês podem ter uma visão muito negra. A literatura contemporânea tem momentos muito negros, o sujeito fica, assim, aterrado na violência, com desrespeito pelo ser humano. A gente sente que, em geral, atrás daquele pessimismo, daquele ceticismo, há uma revolta, um desejo de que as coisas não sejam como são. Então, você acaba tendo uma posição crítica.

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Diálogo impossível

Jacques Derrida e o gato.

Na semana em que se lembram os 10 anos do desaparecimento de Jacques Derrida, na semana em que chego do incrível colóquio Cada vez, o impossível: Derrida (10 anos depois), organizado em Brasília pelo prof. Piero Eyben e onde apresentei comunicação, leio as respostas que o escritor Evando Nascimento escreveu a perguntas minhas e do Rogério Pereira publicadas no Jornal Rascunho. Entrevista importante para quem se interessa pela obra do Evando ou pela literatura contemporânea, ou ainda para quem deseja se perguntar pelos efeitos da filosofia na literatura (já que o Evando foi aluno de Derrida), a conversa com o escritor é um modo de conversar com a literatura, não porque o escritor fale por ela, a literatura; antes porque a escritura, como me disse alguém na cidade de Brasília, é impossível sem diálogo. Não que seja preciso falar dela, tagarelá-la; antes porque, se a escrita é uma marca que permanece, o diálogo é uma fala marcada pela escrita. Pois, como afirmou o Evando na entrevista:

O fato é que, desde os gregos pelo menos, inventores do discurso chamado de “filosofia” (traduzível como amor ao saber), literatura e filosofia sempre se relacionaram. Isso ocorreu de modo às vezes harmonioso, como no caso dos chamados pré-socráticos, às vezes conflituoso, como em Platão. Derrida era um apaixonado pelos dois tipos de discurso. Com Derrida, o discurso literário é elevado à categoria de pensamento. Ele não é o único a fazê-lo, mas o fez sem nenhuma hierarquia entre literatura e filosofia. Diria, ao contrário, que, para algumas questões, a literatura propõe formulações mais contundentes.

O afeto do poeta

Sobre esse livro, a resenha no Jornal Rascunho:

Editorialmente, a criação de coleções piratas, antologias, blogs e o apagamento da autoria individual em poemas escritos a quatro ou mais mãos são sinais de circulação do afeto que muitas vezes não se preservam com a profissionalização do poeta: “Afinal de contas a pergunta: podem, os afetos, ser profissionais?”. Poeticamente, a citação operada como profanação da memória (em Cristobo) e como citação afetiva (em Marília) desestabilizam a identidade do poema presente e do poeta ou poema citados, fazendo do encontro uma experiência-chave para a composição e a leitura do poema.
No que é decisiva, Luciana põe em circulação o afeto, que ela identifica como constitutivo da cena de leitura do poema contemporâneo, mas restam poucas dúvidas de que a poesia atual emaranha uma rede muito mais complicada. É preciso que, a partir da leitura, se reafirmem outros paradigmas afetivos para a poesia, pois, em se tratando de afetos, mesmo a noção de paradigma não admite o valor de regra, e ganha, como no livro de Luciana, o valor de “mais um”.