Que literatura ensinar na escola?

“Chris, o cachorro, escutando o gramofone, na Antártica”, por Herbert Ponting, c. 1911

Trata-se de vozes contra-hegemônicas no contexto escolar. Escutemos os ecos possíveis de um cotidiano futuro.

1. Que literatura ensinar na escola, Roland Barthes?

1973: O prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir suas próprias ideias – pois meu corpo não tem as mesmas ideias que eu.

2. Que literatura ensinar na escola, Giorgio Agamben?

1977: Ainda precisa ser investigado, na perspectiva de uma fundação crítica das ciências humanas, que da ironia romântica, exatamente com os Schlegel, tenha podido brotar uma atitude autenticamente filológica e científica (que deu, entre outras coisas, um impulso essencial à linguística europeia). Se nas ciências do homem sujeito e objeto necessariamente se identificam, então a ideia de uma ciência sem objeto não é um paradoxo jocoso, mas talvez a tarefa mais séria que, em nosso tempo, continua confiada ao pensamento. O que o perpétuo afiar de facas de uma metodologia que nada mais tem a cortar busca hoje, cada vez mais frequentemente, dissimular, ou seja, a consciência de que o objeto que devia ser aprendido frustrou, no final, o conhecimento, acaba reivindicado pela crítica como o seu caráter específico próprio. Assim como toda autêntica quête, a quête da crítica não consiste em reencontrar o próprio objeto, mas em garantir as condições da sua inacessibilidade.

3. Que literatura ensinar na escola, Jacques Derrida? 

1992: Se todo texto literário joga e negocia a suspensão da ingenuidade referencial, da referencialidade tética (não da referência ou da relação intencional em geral), cada texto o faz de modo diferente e singular. Se não há essência da literatura, ou seja, identidade a si da coisa literária, se o que se anuncia ou se promete como literatura nunca se apresenta como tal, isso quer dizer, entre outras coisas, que uma literatura que falasse apenas da literatura ou uma obra que fosse puramente autorreferencial se anularia de imediato. O senhor dirá que talvez seja isso que está acontecendo. Nesse caso, é essa experiência de aniquilação do nada, com o nome de literatura, que interessa a nosso desejo. Experiência do Ser, nada mais, nada menos, à beira do metafísico [au bord du métaphysique], a literatura talvez se mantenha à beira de tudo, quase mais além de tudo, inclusive de si própria. É a coisa mais interessante do mundo, talvez mais interessante do que o mundo, razão pela qual, se não é idêntica a si mesma, o que se anuncia e se recusa com o nome de literatura não pode ser identificado a nenhum outro discurso. Nunca será científica, filosófica, coloquial.

4. Que literatura ensinar na escola, Gilles Deleuze?

1993: A literatura é delírio e, a esse título, seu destino se decide entre dois polos do delírio. O delírio é uma doença, a doença por excelência a cada vez que erige uma raça pretensamente pura e dominante. Mas ele é a medida da saúde quando invoca essa raça bastarda oprimida que não para de agitar-se sob as dominações, de resistir a tudo o que esmaga e aprisiona e de, como processo, abrir um sulco para si na literatura. Também aí um estado doentio ameaça sempre interromper o processo ou o devir; e se reencontra a mesma ambiguidade que se nota no caso da saúde e do atletismo, o risco constante de que um delírio de dominação se misture ao delírio bastardo e arraste a literatura em direção a um fascismo larvado, a uma doença contra a qual ela luta, pronta para diagnosticá-la em si mesma e para lutar contra si mesma. Fim último da literatura: pôr em evidência no delírio essa criação de uma saúde, ou essa invenção de um povo, isto é, uma possibilidade de vida. Escrever por esse povo que falta… (“por” significa “em intenção de” e não “em lugar de”).

AGAMBEN, Giorgio. [1977] Estâncias: A palavra e o fantasma na cultura ocidental. Tradução de Selvino J. Assmann. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007. p. 10-11.

BARTHES, Roland. [1973] O prazer do texto. Tradução de J. Guinsburg. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2004. p. 24.

DELEUZE, Gilles. [1993] Crítica e clínica. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997. p. 15.

DERRIDA, Jacques. [1992] Essa estranha instituição chamada literatura: Uma entrevista com Jacques Derrida. Tradução de Marileide Dias Esqueda. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.

Desenhos de Artaud

De 1946, ambos. Desenho para olhar de través (Dessin à regarder de traviole):
artaud_dessin à regarder de traviole Inabilidade sexual de Deus (La maladresse sexuelle de Dieu):artaud_la maladresse sexuelle de dieuSão os desenhos referidos por Jacques Derrida no ensaio Enlouquecer o subjétil (Forcener le subjéctile), de 1986, publicado no livro Artaud: Dessins et portraits, da Gallimard, e publicado em português no livro-de-artistas (assim o chamo) Enlouquecer o subjétil, de 1998 (Ateliê Editorial/Imprensa Oficial/EdUnesp), com intervenções gráficas de Lena Bergstein.

Presença

sétimo encontro_presença

Dessa vez a oficina se fez em homenagem a um parágrafo de Jacques Derrida, e basta:

Por definição, uma assinatura escrita implica a não-presença atual ou empírica do signatário. Mas, dir-se-ia, marca também e retém seu ter-sido presente num agora passado, que permanecerá um agora futuro, logo, um agora em geral, na forma transcendental da permanência. Esta permanência geral está de algum modo inscrita, pregada na pontualidade presente, sempre evidente e sempre singular, da forma de assinatura. É essa originalidade enigmática de qualquer rubrica.

(“Assinatura Acontecimento Contexto”, in Limited Inc. Tradução de Constança Marcondes Cesar. Campinas: Papirus, 1991. p. 35.)

Efeito-Brasília

sétimo encontro_cartão postal frente e verso

Clique no cartão-postal para lê-lo.

Assim como se diz que se nutre um amor platônico ao se amar a ideia da coisa, pode-se muito bem falar de um amor derridiano ao se amar um centro que não é um centro, como Brasília. E foi de lá que enviei um cartão-postal para os meus alunos (leitores de Brás Cubas) que só chegou ao destino muito depois de eu já ter retornado da cidade, hoje, quando se completam os dez anos da morte de Jacques Derrida, o pensamento que me levou até ao símbolo da arte construtiva no Brasil. O cartão-postal, que é um ensaio, é uma performance. A carta chega sempre atrasada. Mas esteve presente hoje, nas aulas, trazendo a mensagem de um fantasma que há uns dez dias a escreveu a centenas de quilômetros daqui e soube amar sílabas de m-a-r na cidade plana e seca onde o nariz sangra.

Brasília

Croquis do Plano Piloto de Brasília, por Lúcio Costa.

Que isso se dê na cidade de Brasília e aqui no plano-piloto: o espaço que se manteve, ainda que por sua nomeação, no âmbito do desenho (chama-se a cidade de plano-piloto), o espaço inaugurado pelo x ou pela cruz marcados sobre a superfície plana do Planalto Central (no primeiro desenho de Lucio Costa), a cidade flutuante – eterno plano que segue planando sobre o solo, em forma de avião ou pássaro –, a cidade cujas formas lunares dos prédios desenhados por Niemeyer marcam-se de certa melancolia como a de quem viaja à lua procurando civilizá-la desenhando-lhe o futuro, a cidade, enfim, cujo projeto construtivo não previu a habitação daqueles que a construíram, a cidade-monumento onde, por tudo isso, quase tudo é resto – ela, a cidade, que restou projeto, plano-piloto; eles, os cidadãos, que restaram também eles projetos de uma cidadania que só pôde se exercer fora da cidade, em ocupações-satélites. Que, em Brasília, se opere, neste evento, o rito da desconstrução, é, ao menos para mim, uma nomeação algo precisa do Brasil, esta ilha onde é possível sobrescrever, num ato de fala, a resposta de Jacques Derrida ao que seja desconstrução: desconstrução é Brasil.

(Trecho da comunicação apresentada no V Colóquio Escritura: Linguagem e Pensamento, em Brasília.)

Diálogo impossível

Jacques Derrida e o gato.

Na semana em que se lembram os 10 anos do desaparecimento de Jacques Derrida, na semana em que chego do incrível colóquio Cada vez, o impossível: Derrida (10 anos depois), organizado em Brasília pelo prof. Piero Eyben e onde apresentei comunicação, leio as respostas que o escritor Evando Nascimento escreveu a perguntas minhas e do Rogério Pereira publicadas no Jornal Rascunho. Entrevista importante para quem se interessa pela obra do Evando ou pela literatura contemporânea, ou ainda para quem deseja se perguntar pelos efeitos da filosofia na literatura (já que o Evando foi aluno de Derrida), a conversa com o escritor é um modo de conversar com a literatura, não porque o escritor fale por ela, a literatura; antes porque a escritura, como me disse alguém na cidade de Brasília, é impossível sem diálogo. Não que seja preciso falar dela, tagarelá-la; antes porque, se a escrita é uma marca que permanece, o diálogo é uma fala marcada pela escrita. Pois, como afirmou o Evando na entrevista:

O fato é que, desde os gregos pelo menos, inventores do discurso chamado de “filosofia” (traduzível como amor ao saber), literatura e filosofia sempre se relacionaram. Isso ocorreu de modo às vezes harmonioso, como no caso dos chamados pré-socráticos, às vezes conflituoso, como em Platão. Derrida era um apaixonado pelos dois tipos de discurso. Com Derrida, o discurso literário é elevado à categoria de pensamento. Ele não é o único a fazê-lo, mas o fez sem nenhuma hierarquia entre literatura e filosofia. Diria, ao contrário, que, para algumas questões, a literatura propõe formulações mais contundentes.