Um aluno diante de uma questão de prova

Tempo e memória, de Joan Brossa

A questão nem chega a ser propriamente literária, pois o que se pede ao aluno é que, após a leitura de “Uma criatura” (que Machado de Assis publicou em 1901 no livro Ocidentais), ele reconheça no poema traços da estética do Romantismo, aproximando-o de alguma das poéticas que se sucederam ao longo das décadas do Segundo Reinado. Estamos em dia de prova e o poema não é propriamente romântico. Uma questão como essa avalia antes a compreensão histórica de uma versão da poesia no Brasil, compreensão suficientemente complexa para que o leitor proponha uma interpretação anacrônica do poema em questão, encarando a história (seja ela qual for, da literatura ou de uma vida) como um palimpsesto. É preciso lidar com os recursos que tem diante de si, em dado momento. E a dificuldade se impõe: eu entendi que o poema, ao apresentar ao leitor a Morte que é a Vida, guarda traços melancólicos do Ultrarromantismo, mas isso não está certo. Não estaria certo porque, como toda aproximação, trata-se de uma imprecisão – afinal, a composição alegórica da criatura remonta a um procedimento caro à obra de Castro Alves, portanto ao Condoreirismo, além de a monstruosidade da vida, ainda que não orgânica, antecipe a poética de Augusto dos Anjos. Como lidar com uma questão imprecisa, com um poema que aponta para todos os lados da história? É imprescindível escolher, e, como em toda escolha, haverá perdas. E, como em toda escolha, haverá um sujeito, pois haverá quem se submeta a uma condição (o sujeito é aquele que está sujeito a alguma coisa) e haverá quem aja (o sujeito não é um objeto). Assim, pouco me importou que pouco de literatura houvesse numa questão como aquela, pois para aquele aluno naquele momento, escolher responder a questão (e assim silenciar sentidos que para ele estavam claros e exigiam palavra) representou aprender que o conhecimento mais objetivo, aquele que é memorizável e quantificável, vai pelo ralo diante da necessidade de escolher. Na escola, o lugar do professor antecede o daquele que ensina o que sabe, que ensina através do que sabe. Pode ser também (o que é mais básico) o daquele que ensina apesar dos saberes. Mas, se não ensina somente o que sabe, o professor ensina mais o quê?

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Poema em livro didático

Nessa semana folheei e li trechos de vários livros didáticos de Língua Portuguesa e Literatura para o Ensino Médio.

Me assustei ao encontrar coisas do tipo: o poema do José Paulo Paes sem os dois primeiros versos e com a pontuação esquizofrênica.

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Esse poema costuma aparecer quando se trata de selecionar paródias da “Canção do exílio”, que são por si sós um gênero textual à parte, divertido e inteligente, na poesia do Brasil. 

Entre as paródias posteriores ao Modernismo, esta é das mais significativas: uma redução estrutural de todas as paródias, paródia das paródias, no contexto da onda estruturalista nas universidades.

Daí outro livro decidiu organizar as estrofes em colunas, talvez para ficar mais “bonitinho”, certamente não para economizar espaço.

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Como se  não houvesse diferença à leitura. Nem comento as ilustrações (aquele sofazinho estampado na primeira imagem é de uma falta de imaginação…).

Apesar de acertar os versos, o segundo livro nem por isso acertou o título, que é “Canção de exílio facilitada”. Além de dar margem à exploração da semântica do artigo definido (e da ausência dele), é sobretudo a generalização do exílio pelo título que confere um tom pungente e pessimista ao poema, pois foi justamente no período de virada da década de 1970 que se multiplicaram os exilados políticos da ditadura. O poeta oferece como que um manual poético não apenas às paródias anteriores, como também aos exilados, que não deveriam se comover tanto com a falta do Brasil nos seus aspectos mais confortáveis (“papá”, “maná”, “sofá”) mas sustentados pela “sinhá”. Aos que deixaram o Brasil, que não repetissem a saudade romântica, ela própria alimento do slogan: “Ame-o ou deixe-o”.

O nacionalismo inscreve uma marca puramente negativa no poema de José Paulo Paes, e é pelo menos por isso que exijo que tratem bem o poema, para que a negatividade estética se inscreva na página e não prossiga recalcada na escola.

É um pouco essa vontade de recusar a experiência da leitura o que move intervenções gráficas como essa.

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O poema já surge aos olhos todo anotado, como se não houvesse leitura sem análise, como se a leitura não fosse condição de qualquer compreensão ou verificação da análise e, depois, da interpretação.

Ou ainda preserva-se, numa das coleções mais valorizadas entre professores, uma noção evolutiva da história literária, propondo-se o juízo estético com base em critérios temáticos.

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Enfim, das seis coleções que li, apenas uma mencionava a obra de Sousândrade, o que indica um desafio (entre tantos) aos professores que ousam (será isso mesmo?) abordá-la na escola.

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Como deu para notar, só me ative aos capítulos dedicados à poesia do Romantismo. E se me estendi em detalhes, foi porque são eles que fazem a diferença.

Um tabaréo

O desenho de Castro Alves chama a atenção pelos traços e pelo tema: romântico na solidão do campo e na corpulência do cavalo (de cabeça pequena) em relação ao homem, realista no estilo nítido com volume arredondado dos traços, na pose das figuras (o olhar fixo do homem nem por isso é profundo à paisagem) e na escolha por representar o homem rústico, ainda que elegante.

"Um tabaréo", sem data, Castro Alves

“Um tabaréo”, sem data, Castro Alves

(Fonte: https://blogdabn.wordpress.com/2012/03/14/165-anos-de-castro-alves-biblioteca-nacional-tem-desenhos-e-rico-acervo-sobre-o-poeta/)