Arte & ponto (Homenagem a Regina Silveira)

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Regina Silveira

No meio de uma revista de palavras cruzadas, lançada em agosto de 2016, uma página composta por Regina Silveira. O projeto da Ikrek Edições em parceria com a revista A Recreativa deu no que deu: os dois grupos de escritores da Oficina Ato Zero desobedeceram os pontinhos da página-de-artista & compusemos três novas páginas. Eu, que encomendei cinco exemplares da revista com a página da Regina Silveira, ganhei três outros exemplares dos escritores da Oficina, multiplicando presente com a graça de graça dos presentes. Arte, morte, marte, até se apagarem os pontos & ponto final. Exercício de desaparecimento, jogo do jogo, um aceno, de uma oficina literária na escola, ao mundo da arte quando ele se propõe, barato, a circular pelas bancas de jornal.

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Fala, coisa! (Quatro homenagens a Francis Ponge)

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Jean Dubuffet, Retrato de Francis Ponge, 1947

Tudo começou, dessa vez, com a Missão Dois Reais: cada escritor recebeu uma nota de dois reais e a missão de comprar um objeto qualquer desde que na coisa comprada houvesse texto impresso e a coisa fosse comprada com até dois reais. Era preciso levar a coisa para a escola acompanhada do troco, se houvesse, e da nota fiscal, se houvesse. E assim cada escritor produziu sua coisa textual, cada objeto escolhido, lápis cola copo tatuagem, foi transcrito, e a coisa transcrita deu nessas coisas textuais. Código de barras, local de fabricação, registro em agência reguladora, recomendações de uso, uma série, enfim, de gêneros textuais guardados invisíveis nas coisas banais e baratas, o que o texto da coisa diz de um mundo em que a coisa e a mercadoria mal divergem? São homenagens a Francis Ponge.

lápis

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Bruna Gonçalves

cola

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Mariana Batista

copo

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Mariana Albuquerque

tatuagem

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Danilo Sardinha

A letra, os corpos, a escola

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Roman Opalka (1930-2011)

Repetir a letra para corrigir o comportamento: um modelo para o castigo na escola. Repetir a frase no quadro-negro que diz o que não se deve repetir no comportamento: uma ética para o castigo na escola. As provas, que propõem ao estudante repetir a letra das aulas para provar o saber pela repetição, são, também elas, um modelo para a culpa na escola, e nas universidades. O estudante é culpado por não saber, e por isso o seu trabalho, ao contrário do trabalho de aprendizado do professor, não é remunerado. O ônus da prova é de quem acusa, mas não na escola, onde o ônus da prova é do aluno, acusado de não saber. A distopia segue a mesma: que a letra atue na moralização dos corpos. E alguma oficina literária, na escola, pode ser espaço heterotópico: que a letra atue no deslocamento dos corpos. Escrever até o fim, como Roman Opalka pintou com números ou como Armando Freitas Filho segue numerando seus poemas: um modo de deslocar os corpos, deslocá-los para, separados da letra, inscreverem, na letra, sua ausência. Escrever até o fim como um modo de deslocar os corpos para perto da morte, e a escrita acontecer. Caligrafar, assim, algum abandono, e debandar, assim, rumo à duração da letra, ao quanto se sustenta a numeração ou a repetição da letra antes que o corpo acabe. Ao se apropriarem do dispositivo do castigo, os escritores da Oficina Literária Ato Zero produziram a possibilidade de debandarem rumo ao texto sem fim.

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Bruna Gonçalves

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Mariana Freitas

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Danilo Sardinha

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Mariana Batista

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Mariana Albuquerque

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Gabriel Tomé

Acontecer a letra onde o capital

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Zero real (2013), Cildo Meireles

Onde há dinheiro, ele falta: a sua condição é, sendo patrimônio de alguém, produzir a pobreza do outro. Objeto impresso de propriedade da União, ele circula e empresta valor às coisas que comemos, moramos ou vestimos, nos empresta alguma possibilidade de sobrevivência, destruindo, por sua mera existência, alguma forma de instituir uma comunidade qualquer. Dinheiro é Deus, e o Estado, seja do jeito que for, trabalha para produzir pobreza. A poesia produz outra forma de objeto impresso: pobre desde sempre. Pobre como a nota de zero real inventada pelo Cildo Meireles, estampando não um animal em extinção da fauna brasileira, como as notas com algum valor real, mas o rosto de um índio, numa face, e o corpo morto de um índio, na outra face da nota sem valor real. Zero real é O real é o real. A sociedade contra o Estado vale zero real, e vale o real. O índio precisa ser pobre ou não será. Pobre como a nota de um imaginário inventada por Pablo Paniágua, cujo valor compra exatamente zero mercadorias e avisa que a imaginação é a miséria do mercado. Ou então que o real do dinheiro é o imaginário do sujeito, e avisa que o real é a miséria de si. A poesia é pobre e o dinheiro é coisa impressa, qual poema imaginar escrever sobre Deus?

 

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Projeto Fortuna, Cédulas de Imaginário (2013), por Pablo Paniágua (foto de Fabio Morais)

Dez escritores não grafaram o poema no dinheiro. É crime, dano qualificado previsto pelo artigo 163 do Código Penal, pena: seis meses a três anos de detenção, e multa. Dez ou onze escritores não escreveram em dinheiro, escola não é museu, por isso, no entanto, algo como arte está por vir. Dez ou onze escritores imaginaram, durante poucos minutos, relações para além do dinheiro, no diáfano de uma lâmina de plástico. Escrever na transparência para não escrever. Escrever na transparência é descobrir que nunca de fato se escreve no papel que se escreve. E assim escrevemos em qualquer lugar, qualquer superfície, há sempre uma transparência entre a letra e a coisa escrita, e a transparência é alguma coisa entre a letra e a coisa escrita, é o que difere a letra tornando-a visível. Foi, por fim, para diferir a letra que outra oficina se fez, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer fome, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer lucro, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer impiechment, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer família, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer pobreza, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer eleição, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer privatização, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer salário, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer inflação, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer demissão, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer gestão, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer.

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Gabriel Tomé

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Mariana Freitas

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Mariana Batista

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Luiz Guilherme Barbosa

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Mariana Freitas

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“Leonardo”, Mariana Batista

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Mariana Albuquerque

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Mariana Batista

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Alexandre Magalhães

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Mariana Albuquerque

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Danilo Sardinha

 

 

dois dias na vida

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Fotografia de Alexandre Magalhães

O Alexandre Magalhães escreveu, ainda sob a força da leitura de um trecho do poema-livro da Tamara Kamenszain, uma semana na vida de um estudante de escola. O Alexandre Magalhães é desses escritores que vão na direção do mau estilo, que fazem da literatura paródia da literatura. Eu adoro. Olha só. Dois dias.

Dia 1

eu…
roubado
aqui tá,
no quarto
meio tudo,
sabe?
errado
fui
depois
a mãe
doeu
à padaria
visitar
ao sair
sangrou
minha tia
o chão
não vi
a topada
oi, bia!

que tédio

 

Dia 5

Eh cum mto pezar q informamo pros amigos o falecemento de nosso amado filho na saida da escola no dia de hj estamus todos mto triste pois ele era nosso maior tezouro nosso amor nosso anjo choramos mto e estamos de luto pelo que aconteceu =((((((( vai com os anjus meu amor guarda um lugarzinho pro seu papai e pra sua mamae ai do seu lado a gente vai sempre te amar mto pra sempre meu amor vc e a coisa mais precioza q eu tinha na minha vida e agora vc se foi estou mto mto triste =( porque eu não fui no seu lugar meu amor seus pais

Um cada que vira um mas ainda é cada

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A Mariana Freitas, uma das escritoras da Oficina Literária Ato Zero, compôs, em 2015, um receituário de poemas chamado LouCura. No texto que segue, ela relata a sua relação com a literatura, a Oficina e a composição do receituário.

“Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça./ Não veio o disparo nem a morte: a mauser se transformara num lápis.”

Estávamos lendo um conto do Murilo Rubião juntos – acho que foi a primeira vez que conseguimos reunir todos em uma Oficina esse ano. Gosto de ouvir as pessoas lendo. Gosto quando o Luiz despe o texto e nos conta coisas que parecem segredos que o autor só confia a amigos íntimos.

Quarta, dia 25/5/2016, por volta de 12h40min. Paramos a leitura para comentarmos o trecho, quando percebi que o motivo de ter começado a escrever estava bem ali: eu precisava de uma fuga.

Quando tinha uns 10 anos, reclamei com minha mãe que estava entediada, ela me sugeriu escrever alguma coisa. Nesse dia, fiz meu primeiro poema, que falava sobre o coqueiro que fica atrás da minha casa e sobre como nós conversávamos. Eu fugi de um dia chato em casa.

Depois disso vieram muitos outros textos. Decepções, descobertas, amores, críticas, declarações. E com o tempo a fuga se transformou em algo maior. Passei a me conhecer enquanto escrevia e a dizer tudo que não saía pela minha boca. Alívio é a palavra.

As palavras transbordavam de mim, via motivos para escrever em todos os lugares. Meus cadernos eram cheios de textos inacabados, ideias para desenvolver, frases para analisar, mas tudo em segredo. Como se tudo isso que explodia em mim fosse uma vergonha.

Até que conheci um amigo que também escrevia. O alívio se tornou prazer. Trocamos muitas cartas com nossos textos. Eu amava ler as coisas que ele me enviava, e ficava feliz quando ele era tocado pela minha poesia. Foi a primeira pessoa com quem compartilhei de verdade o que escrevia.

Em 2015, no meu primeiro ano do ensino médio, fiquei sabendo de um processo de seleção pra uma bolsa em um projeto de iniciação científica em Língua Portuguesa, era algo envolvendo textos argumentativos. Pensei: “Por que não? Eu gosto de escrever, meus professores me elogiam e ainda vou ganhar uma bolsa por isso.” Enquanto respondia as perguntas junto com outros alunos, ouvi o Luiz Guilherme falar sobre outra bolsa, só que para iniciação artística: fiz também.

Eu fiz sem pretensões, afinal tinha um número considerável de alunos interessados e eu era só uma garota começando o primeiro ano. Fiquei surpresa quando recebi a notícia que tinha conseguido a bolsa nos dois projetos. Escolhi a iniciação artística, e acho que fui extremamente feliz nisso.

Lembro bem do meu primeiro dia na Oficina Ato Zero, escrevemos frases em nossos braços. Eu estava maravilhada e ao mesmo tempo nervosa pensando que poderia ser a menos habilidosa entre todos que estavam ali. Já minha mãe espalhou a notícia para a família e todos foram olhar a publicação que o Luiz colocou no blog sobre o que tínhamos feito.

A cada dia na Oficina tive uma aprendizagem nova, conheci um pouco mais dos alunos que antes eram estranhos que apenas estudavam no mesmo colégio que eu. Percebi que a questão não estava em ser a melhor do grupo, ninguém jamais será melhor entre nós, porque somos diferentes e isso fica muito claro em tudo que produzimos.

É incrível como uma palavra dita pelo Luiz ou por algum autor produz coisas tão diferentes em cada um. Cada um. Um cada que vira um, mas ainda é cada. E a Ato Zero foi o lugar que encontrei para me expressar, me aliviar, me divertir, me conhecer, às vezes fugir, aprender sobre literatura e alcançar outras pessoas. Me sinto muito bem quando leio textos que me tocam de alguma forma e espero poder fazer isso também.

Precisamos de alguém que nos incentive e nos diga que somos capazes, e o Luiz me ajudou nisso, dizendo sempre para tentarmos mesmo falhando. Quando recebi uma mensagem dele elogiando meu primeiro texto feito na Oficina, senti que eu não era tão ruim assim e que não queria mais esconder o que escrevia.

Foi por estar ligada ao aspecto terapêutico das palavras que meu projeto do ano passado tomou o rumo dos receituários. O Luiz pediu que apresentássemos um projeto no final do ano. Ele nos deu algumas sugestões, mas ficamos bem livres para fazermos o que desejássemos. Em meio a conversas sobre médicos escritores e sobre minha dúvida entre cursar Medicina ou Letras, tive a ideia de receitar poesia a pessoas com problemas, problemas que presencio facilmente no dia a dia.

Confesso que tive dificuldade de escrever certas receitas, mas foi ótimo parar e refletir sobre essas questões e ver que muitas não possuem soluções imediatas, são situações que fazem parte da vida e a poesia pode ser um amparo. Poesia que, muitas vezes, está escondida em nós, e só precisa de uma oportunidade para se manifestar.

Ainda não decidi se quero ser médica ou professora. Talvez não seja nenhuma das duas coisas. Ou as duas. Quem vai saber? Mas as incertezas têm me proporcionado muito mais que respostas, têm me proporcionado belas experiências. Quero continuar escrevendo, tocando pessoas e conhecendo-as, sendo abraçada pelas palavras e aprendendo tudo o que puder.