Acontecer a letra onde o capital

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Zero real (2013), Cildo Meireles

Onde há dinheiro, ele falta: a sua condição é, sendo patrimônio de alguém, produzir a pobreza do outro. Objeto impresso de propriedade da União, ele circula e empresta valor às coisas que comemos, moramos ou vestimos, nos empresta alguma possibilidade de sobrevivência, destruindo, por sua mera existência, alguma forma de instituir uma comunidade qualquer. Dinheiro é Deus, e o Estado, seja do jeito que for, trabalha para produzir pobreza. A poesia produz outra forma de objeto impresso: pobre desde sempre. Pobre como a nota de zero real inventada pelo Cildo Meireles, estampando não um animal em extinção da fauna brasileira, como as notas com algum valor real, mas o rosto de um índio, numa face, e o corpo morto de um índio, na outra face da nota sem valor real. Zero real é O real é o real. A sociedade contra o Estado vale zero real, e vale o real. O índio precisa ser pobre ou não será. Pobre como a nota de um imaginário inventada por Pablo Paniágua, cujo valor compra exatamente zero mercadorias e avisa que a imaginação é a miséria do mercado. Ou então que o real do dinheiro é o imaginário do sujeito, e avisa que o real é a miséria de si. A poesia é pobre e o dinheiro é coisa impressa, qual poema imaginar escrever sobre Deus?

 

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Projeto Fortuna, Cédulas de Imaginário (2013), por Pablo Paniágua (foto de Fabio Morais)

Dez escritores não grafaram o poema no dinheiro. É crime, dano qualificado previsto pelo artigo 163 do Código Penal, pena: seis meses a três anos de detenção, e multa. Dez ou onze escritores não escreveram em dinheiro, escola não é museu, por isso, no entanto, algo como arte está por vir. Dez ou onze escritores imaginaram, durante poucos minutos, relações para além do dinheiro, no diáfano de uma lâmina de plástico. Escrever na transparência para não escrever. Escrever na transparência é descobrir que nunca de fato se escreve no papel que se escreve. E assim escrevemos em qualquer lugar, qualquer superfície, há sempre uma transparência entre a letra e a coisa escrita, e a transparência é alguma coisa entre a letra e a coisa escrita, é o que difere a letra tornando-a visível. Foi, por fim, para diferir a letra que outra oficina se fez, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer fome, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer lucro, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer impiechment, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer família, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer pobreza, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer eleição, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer privatização, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer salário, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer inflação, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer demissão, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer gestão, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer.

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Gabriel Tomé

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Mariana Freitas

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Mariana Batista

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Luiz Guilherme Barbosa

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Mariana Freitas

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“Leonardo”, Mariana Batista

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Mariana Albuquerque

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Mariana Batista

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Alexandre Magalhães

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Mariana Albuquerque

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Danilo Sardinha

 

 

dois dias na vida

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Fotografia de Alexandre Magalhães

O Alexandre Magalhães escreveu, ainda sob a força da leitura de um trecho do poema-livro da Tamara Kamenszain, uma semana na vida de um estudante de escola. O Alexandre Magalhães é desses escritores que vão na direção do mau estilo, que fazem da literatura paródia da literatura. Eu adoro. Olha só. Dois dias.

Dia 1

eu…
roubado
aqui tá,
no quarto
meio tudo,
sabe?
errado
fui
depois
a mãe
doeu
à padaria
visitar
ao sair
sangrou
minha tia
o chão
não vi
a topada
oi, bia!

que tédio

 

Dia 5

Eh cum mto pezar q informamo pros amigos o falecemento de nosso amado filho na saida da escola no dia de hj estamus todos mto triste pois ele era nosso maior tezouro nosso amor nosso anjo choramos mto e estamos de luto pelo que aconteceu =((((((( vai com os anjus meu amor guarda um lugarzinho pro seu papai e pra sua mamae ai do seu lado a gente vai sempre te amar mto pra sempre meu amor vc e a coisa mais precioza q eu tinha na minha vida e agora vc se foi estou mto mto triste =( porque eu não fui no seu lugar meu amor seus pais

Um cada que vira um mas ainda é cada

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A Mariana Freitas, uma das escritoras da Oficina Literária Ato Zero, compôs, em 2015, um receituário de poemas chamado LouCura. No texto que segue, ela relata a sua relação com a literatura, a Oficina e a composição do receituário.

“Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça./ Não veio o disparo nem a morte: a mauser se transformara num lápis.”

Estávamos lendo um conto do Murilo Rubião juntos – acho que foi a primeira vez que conseguimos reunir todos em uma Oficina esse ano. Gosto de ouvir as pessoas lendo. Gosto quando o Luiz despe o texto e nos conta coisas que parecem segredos que o autor só confia a amigos íntimos.

Quarta, dia 25/5/2016, por volta de 12h40min. Paramos a leitura para comentarmos o trecho, quando percebi que o motivo de ter começado a escrever estava bem ali: eu precisava de uma fuga.

Quando tinha uns 10 anos, reclamei com minha mãe que estava entediada, ela me sugeriu escrever alguma coisa. Nesse dia, fiz meu primeiro poema, que falava sobre o coqueiro que fica atrás da minha casa e sobre como nós conversávamos. Eu fugi de um dia chato em casa.

Depois disso vieram muitos outros textos. Decepções, descobertas, amores, críticas, declarações. E com o tempo a fuga se transformou em algo maior. Passei a me conhecer enquanto escrevia e a dizer tudo que não saía pela minha boca. Alívio é a palavra.

As palavras transbordavam de mim, via motivos para escrever em todos os lugares. Meus cadernos eram cheios de textos inacabados, ideias para desenvolver, frases para analisar, mas tudo em segredo. Como se tudo isso que explodia em mim fosse uma vergonha.

Até que conheci um amigo que também escrevia. O alívio se tornou prazer. Trocamos muitas cartas com nossos textos. Eu amava ler as coisas que ele me enviava, e ficava feliz quando ele era tocado pela minha poesia. Foi a primeira pessoa com quem compartilhei de verdade o que escrevia.

Em 2015, no meu primeiro ano do ensino médio, fiquei sabendo de um processo de seleção pra uma bolsa em um projeto de iniciação científica em Língua Portuguesa, era algo envolvendo textos argumentativos. Pensei: “Por que não? Eu gosto de escrever, meus professores me elogiam e ainda vou ganhar uma bolsa por isso.” Enquanto respondia as perguntas junto com outros alunos, ouvi o Luiz Guilherme falar sobre outra bolsa, só que para iniciação artística: fiz também.

Eu fiz sem pretensões, afinal tinha um número considerável de alunos interessados e eu era só uma garota começando o primeiro ano. Fiquei surpresa quando recebi a notícia que tinha conseguido a bolsa nos dois projetos. Escolhi a iniciação artística, e acho que fui extremamente feliz nisso.

Lembro bem do meu primeiro dia na Oficina Ato Zero, escrevemos frases em nossos braços. Eu estava maravilhada e ao mesmo tempo nervosa pensando que poderia ser a menos habilidosa entre todos que estavam ali. Já minha mãe espalhou a notícia para a família e todos foram olhar a publicação que o Luiz colocou no blog sobre o que tínhamos feito.

A cada dia na Oficina tive uma aprendizagem nova, conheci um pouco mais dos alunos que antes eram estranhos que apenas estudavam no mesmo colégio que eu. Percebi que a questão não estava em ser a melhor do grupo, ninguém jamais será melhor entre nós, porque somos diferentes e isso fica muito claro em tudo que produzimos.

É incrível como uma palavra dita pelo Luiz ou por algum autor produz coisas tão diferentes em cada um. Cada um. Um cada que vira um, mas ainda é cada. E a Ato Zero foi o lugar que encontrei para me expressar, me aliviar, me divertir, me conhecer, às vezes fugir, aprender sobre literatura e alcançar outras pessoas. Me sinto muito bem quando leio textos que me tocam de alguma forma e espero poder fazer isso também.

Precisamos de alguém que nos incentive e nos diga que somos capazes, e o Luiz me ajudou nisso, dizendo sempre para tentarmos mesmo falhando. Quando recebi uma mensagem dele elogiando meu primeiro texto feito na Oficina, senti que eu não era tão ruim assim e que não queria mais esconder o que escrevia.

Foi por estar ligada ao aspecto terapêutico das palavras que meu projeto do ano passado tomou o rumo dos receituários. O Luiz pediu que apresentássemos um projeto no final do ano. Ele nos deu algumas sugestões, mas ficamos bem livres para fazermos o que desejássemos. Em meio a conversas sobre médicos escritores e sobre minha dúvida entre cursar Medicina ou Letras, tive a ideia de receitar poesia a pessoas com problemas, problemas que presencio facilmente no dia a dia.

Confesso que tive dificuldade de escrever certas receitas, mas foi ótimo parar e refletir sobre essas questões e ver que muitas não possuem soluções imediatas, são situações que fazem parte da vida e a poesia pode ser um amparo. Poesia que, muitas vezes, está escondida em nós, e só precisa de uma oportunidade para se manifestar.

Ainda não decidi se quero ser médica ou professora. Talvez não seja nenhuma das duas coisas. Ou as duas. Quem vai saber? Mas as incertezas têm me proporcionado muito mais que respostas, têm me proporcionado belas experiências. Quero continuar escrevendo, tocando pessoas e conhecendo-as, sendo abraçada pelas palavras e aprendendo tudo o que puder.

Textos curvos

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Trecho de O livro dos divãs, Tamara Kamenszain

Ainda para a Escola Brasileira de Psicanálise. Da escola para a Escola. Textos endereçados após a leitura de O livro dos divãs, da Tamara Kamenszain, que, a certa página traduzida por Carlito Azevedo e Paloma Vidal, anota: “Hoje sou eu quem pergunta ao Facebook / pelos limites da realidade”. Abra-se o Facebook, lê-se: “No que você está pensando?” Responda-se: “On me pense“. Responda-se: “pensa-se em mim”. Responda-se: Rimbaud. Responda-se: Júlia Moura. Responda-se: Síntique Vital. Responda-se, como Roberto Corrêa dos Santos: “- Muitos eus constituem o pronome curvo – eu“. Eis textos curvos.

Mansas
Me chegam palavras para tirar da mente
O vazio. Elas vêm sempre
Acompanhadas de seus verbetes:
Os reais e os que me são convenientes.

Aflorar é vir à tona, emergir,
Além de uma das minhas palavras favoritas.
Aflorar deveria ser tatuar flor:
“Marquei o afloramento para às 10”;
“Onde você aflorou seu braço?”

E se me perguntam o que penso agora,
Digo que não penso, verto,
Transbordo, como dizem os dicionários,
E lembro de pensar. E não verto mais,
Penso. E não escrevo mais. Penso.

Júlia Moura

Estava pensando completamente diferente do que estou pensando agora, como em uma montanha russa em cada verso meus pensamentos cursavam caminhos tortuosos, mas li: “por isso não opino por isso me escondo por trás da primeira pessoa”. O fato de ser judeu, ou melhor, o fato de ser determinadas coisas me faz temer me revelar e por isso me esconder na primeira pessoa? Quando ela diz: “isso responderia à pergunta de como me sinto: ‘uma garotinha’ diria minha mãe”. A infância representa a perdição, a falta de rumo. Ela estava perdida. No fundo, bem no fundo, todos nós estamos?

Síntique Vital

Algo sobre literatura

Gabriela Almeida, uma das escritoras da Oficina Literária Ato Zero, relata, nesse texto, a história de sua relação com a literatura, desde a infância até hoje, a adolescência. Esse foi um dos objetos textuais que foram lidos para o público presente na mesa organizada pela Escola Brasileira de Psicanálise no dia 13 de junho deste ano, da qual tivemos a honra de participar.

textos curvos.pngEu sempre fui muito chegada às palavras. Não sei o que exatamente nos uniu, talvez amor à primeira vista. Só sei que, desde que aprendi a brincar com as letras, nós nunca mais nos separamos. E esse momento aconteceu bem cedo em minha vida, eu comecei a escrever aos cinco anos, quando produzi meus primeiros textos. Quer dizer, eu já inventava histórias antes disso. Eu sempre gostei de histórias. E de palavras.

Lembro de várias noites em que, antes de dormir, meus pais liam pra mim. Havia vezes em que eram gibis da Turma da Mônica, outras em que eram fábulas do famoso livrão, e também tinha aquelas histórias do livro que ficava numa caixa bem grande escondida dentro da cabeça do papai ou da mamãe. A minha casa sempre foi rodeada de livros e palavras, então não foi muito difícil me apaixonar por tudo isso — mas, sei lá, eu não sei se me apaixonaria por uma casa cheia de números —, ainda mais com tantos incentivos vindos de meus pais, ambos professores de língua portuguesa.

A primeira coisa que eu me lembro de efetivamente escrever, sozinha, foi um livrinho que montei com papéis grampeados, que narrava aventuras vividas por Gabi (eu) e Clifford (meu cachorro). Eu acho que tinha seis anos na época. Fiz uns desenhos pra ilustrar a historinha, e, quando terminei meu trabalho, dei continuidade à série Gabi e Clifford; deviam ser uns quatro livrinhos no total. Quando eu tinha nove anos, escrevi um texto pro concurso de repórteres mirins do Jornal O Globo e fui selecionada. Não sei por que, mas não fiquei surpresa, já esperava conseguir (como eu era convencida!). A partir daí, não só os meus pais, mas todo mundo começou a me reconhecer pela escrita, e (eu não sei como, deve ser algum tipo de mágica) até hoje as pessoas me chamam de “escritora” mesmo nunca tendo lido nenhuma linha sequer minha. Deve ser a minha mãe que fala pra elas.

Eu sempre gostei muito de histórias, como já disse. E pra mim, literatura era basicamente isso até o ano passado. Narrações. A poesia estava lá, mas eu tinha um pouco de… não sei ao certo, talvez medo? Poesia era uma coisa muito difícil. Tinha que ser poeta. Eu era escritora, escritor não é poeta; poeta tem que ver beleza nas coisas e saber transformar isso em poesia. Eu vivia na prosa, na linha contínua. E se caísse nos versos? O abismo no fim de cada frase não era o habitual. A poesia doía. Ficava feia em mim. Eu tinha vergonha da poesia, e era melhor ignorar sua existência do que ter que admitir que eu não dominava as palavras por completo. Porque essa era a verdade, minha relação com as letras não era tão plena quanto eu pensava.

E então veio a pausa.

“O tempo”, falando-se em linguagem de relacionamentos.

Em 2013, eu tive uma ideia “brilhante” para um livro. Brilhante entre aspas porque a definição dessa palavra é atualizada constantemente, em termos de ideias, principalmente na adolescência. Algo que parece brilhante quando se tem 13 anos vira estúpido aos 14, e assim sucessivamente. Mas, voltando ao assunto, eu tive uma ideia. E desenvolvi uma história; escrevi o prólogo e o primeiro capítulo, super entusiasmada. Só que nessa época eu estava sem computador, e era difícil ficar escrevendo tudo à mão, então resolvi esperar. E aí, no meu aniversário de 14 anos, em julho de 2014, ganhei um notebook. Digitei a parte da história que já tinha e fui começar a escrever.

E algo inesperado aconteceu: eu não conseguia escrever. Eu tentava, tentava, mas as palavras não saíam. Não entendia o motivo de tal desgraça, o porquê de minhas amigas me abandonarem subitamente. Fiquei muito triste e desmotivada, até de ler eu tinha parado… Não encontrava mais fôlego pra respirar as palavras. E nesse período parecia que tudo de errado estava acontecendo comigo, o que me deixava mais desmotivada.

Continuei assim por um bom tempo, até o início de 2015, quando houve a culminância de todas as coisas ruins pelas quais estava passando. Minha professora de português do nono ano me chamou pra fazer parte de uma equipe de produção de textos argumentativos que ela ia fazer, com bolsistas. Eu fui fazer a prova animada, disposta a ter qualquer distração possível que me tirasse do sofrimento. Mas, quando cheguei lá, descobri que havia uma outra seleção acontecendo, pra um projeto de literatura. Nossa, como eu fiquei feliz. Aquela era a minha chance de voltar pra casa, de achar minha razão novamente nas palavras. Então respondi correndo às perguntas da professora e parti logo pra redação do outro projeto. “Por que desejo escrever literatura?” era a pergunta, e havia umas vinte e cinco linhas para respondê-la. Eu só me lembro de ser a última a sair da sala e, alguns dias depois, receber uma mensagem do meu amigo Alexandre dizendo que eu tinha ficado em primeiro lugar.

E então começou. A primeira oficina quebrou minhas expectativas. Pelo visto, não ia rolar narração; teria que lidar com a tão temida poesia. E meu primeiro desafio foi pensar em alguma coisa pra escrever nas mãos… Eu surtei. Não estava preparada. Vi as outras pessoas tendo tantas ideias boas — principalmente esse meu amigo, Alexandre, que estava em dúvida entre três frases diferentes — e eu sem pensar em nada. Claro que, no fim das contas, eu acabei pensando, mas foi um desafio muito grande, e não gostei tanto do resultado.

Toda semana eu ia pra oficina. E cada dia era uma coisa diferente, todas muito interessantes e distintas da ideia de literatura que eu tinha antes. Descobri que não é preciso contar uma história pra fazer literatura. Só é preciso ter desejo de escrever, desejo de transmitir sua arte para o mundo através das palavras. Não são só textos que compõem o que se chama de literatura: música, artes visuais e performances de todo tipo também fazem parte. O meu modo de encarar a própria arte mudou. E quanto mais eu ia às oficinas, mais eu gostava daquilo, mais eu escrevia, mais a minha visão se transformava, mais eu me aproximava do Alexandre, mais a minha vida ia se tornando diferente e mais eu me reconciliava com as palavras.

Chegou, então, o segundo semestre. Eu e Alexandre começamos a namorar. O professor passou uma proposta de trabalho final da oficina, que a gente deveria fazer usando o google ou o jornal impresso como meios de exploração. No começo, não gostei muito. Mas eu tinha que fazer alguma coisa, né. Então sentei no chão do meu quarto num domingo, com uma pilha de jornais no colo. Apertei o play do spotify numa playlist da minha banda nacional preferida, Engenheiros do Hawaii, e fiquei dando uma olhada no conteúdo que tinha em mãos. O jornal é uma coisa bem esquisita. Encontrei notícias de todo tipo (a maioria eram ruins), manchetes bizarras, muitas letras e muitos números.

Esse último elemento me aborreceu um pouco. Eu, particularmente, tenho um sério problema com os números — não sei o motivo, talvez seja só porque eles não são letras. E estava lá, observando o caderno de economia, quando começou a tocar “Números”, uma música que amo. Ela é uma crítica à obsessão da sociedade atual por esses elementos, que levam uma importância tão grande sem serem realmente importantes em muitos casos. A música corria em meus ouvidos enquanto eu fitava o papel, com raiva. Eu queria mudar aquilo. Eu não me importava com a economia, e não achava que merecesse um caderno inteiro de jornal (CHEIO DE NÚMEROS). E veio naturalmente: peguei canetas e fui riscando todos os números que estavam na página, desde a data até os gráficos econômicos. Ao fim, escrevi bem grande a primeira parte do refrão da música. “E eu, o que faço com esses números?”.

Aquilo foi libertador. Percebi que o jornal era meu, e poderia alterá-lo quantas vezes e como quisesse, o que se tornou meu projeto. Quando mostrei ao professor os jornais que tinha feito — que eram esses dos números, um com uma notícia feliz (da família que adotou uma criança que sofria maus-tratos), onde escrevi a segunda parte do refrão (“A medida de amar é amar sem medida”), e outro com várias manchetes coladas e um grande ponto de interrogação, com versos da música “3a do plural” —, ele os definiu como “clipes visuais” dos Engenheiros. Gostei bastante da ideia, o que me levou ao meu jornal mais importante.

Pensei o seguinte: o jornal representa o meu clipe. Posso transmitir o que eu quiser nessa TV, e boicotar todas as transmissões recorrentes. Olhei, olhei, olhei. O jornal não me agradava. Fiquei cansada de ver tanta informação manipulada, notícia trágica e, é claro, números, que decidi que não dava mais. Eu não queria mais jornal, não queria mais clipe. Eu ia tirar do ar. Sabe aquela imagem com várias cores que as televisões velhas exibiam quando estavam pifadas? Ela simbolizava exatamente o que eu queria. Pedi tinta guache pro professor e pintei meu jornal, tirei do ar tudo aquilo que não estava me agradando. Quando mostrei pro Alexandre, ele disse que estava tão lindo e inspirador que queria emoldurar. E o professor teve a mesma reação, com o acréscimo de comentários filosóficos sobre minha obra.

Bem, eu só queria dizer que amo literatura e que a oficina mudou definitivamente a minha vida como artista. Eu acho que nunca pensaria em boicotar um jornal, nem mesmo em me aventurar na poesia. E, caso fizesse, com certeza não teria tido tanto conforto e facilidade como tive, graças à oficina.