Assassinato de poetas a domicílio

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Dá pra fazer muita coisa com esse título. A Bruna Gonçalves, por exemplo, printou o pixo que apareceu na tela e levou com ela pra oficina literária na escola. Assassinato de poetas a domicílio. O menor conto e o conto menor, conto de escola circulando torto. O canto virado de sereia foi o do conto. A comunidade dos poetas-na-escola diante de Os cem menores contos brasileiros do século, que o Marcelino Freire organizou. Lemos vários, em roda, voz a voz, vis à vis. Depois, a vez de cada um escrever o conto em até 50 letras, cada um escreveu vários. Alguns estão aqui. Foi no dia 7 de julho de 2017 e era uma sexta-feira naquela biblioteca do Colégio Pedro II, no bairro de Realengo. Nenhum poeta à vista.

 

– Olá, Sr. Lua! Tudo bem?

– Não.

 

Lógica do capital

Por três horas catou folhas no chão, então lançou-as ao mar.

 

a cada mordida
cuspia os caroços no chão
a cada beijo
um de seus dentes caía

 

– Você me ama?
– Não.

 

Cinco

Um, dois, três, quatro, quatro.

 

Não abriu a porta, moveu o mundo todo em volta.

 

Quando o sol nascer no leste, saberemos que fomos enganados.

 

É isso.

 

Os contos de Assassinato de poetas a domicílio são, respectivamente, de: Juliana Pereira, Gabriela Almeida, Mariana Freitas, Ana Clara Nogueira, Bruna Gonçalves, Alexandre Magalhães, Gabriela Almeida e Gabriel Tomé

 

Bartleby e seus tradutores

 

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Javier Zabala desenha Bartleby

Bárbaro burburinho. Uma professora me contou que jogou fora um livro do Bartleby que ela tinha porque a frase do Bartleby estava mal traduzida. Bartleby é literatura de ocupação. Quando Bartleby ocupa o escritório do advogado, permanecendo nele durante os finais de semana, o narrador se pergunta: “Mas o que ele poderia estar fazendo ali? – copiando?” O que fazem, afinal, os estudantes numa ocupação? A frase do Bartleby ecoa a recusa que as ocupações são, embora haja controvérsias. É, de todo modo, uma frase que enuncia a própria possibilidade da política, e, por isso mesmo, do exercício da cidadania numa sociedade democrática. Esse clássico norte-americano, contemporâneo a outro clássico seu conterrâneo, o conceito de “desobediência civil”, de Henry David Thoureau, pode ser lido como uma espécie de usina de linguagem democrática, já que o gesto bartlebyano produz sempre mais democracia onde, mesmo numa relação de trabalho organizada e instituída, ela (segundo se diz) já se faz presente. Bartleby, precursor das ocupações, encontra agora traduções inéditas para que nessa língua se possa falar mais ou ainda mais alguma coisa que ecoe um burburinho bárbaro como “I would prefer not to”. São traduções produzidas para o Instituto Pierre Menard, já que, por enquanto, não estamos nele. O Instituto Pierre Menard foi imaginado por Enrique Vila-Matas, em Bartleby e companhia: “Instituto Pierre Menard, romance de Roberto Moretti, é ambientado num colégio em que ensinam a dizer ‘não’ a mais de mil propostas, desde a mais disparatada até a mais atraente e difícil de se recusar”. Não foram poucos os alunos que me perguntaram o que aconteceria se eles preferissem não fazer a tradução que propus. Não fui eu quem disse o que aconteceria. Kafka inventou os seus precursores, Bartleby inventará os seus tradutores. “Traduzir é como olhar para a direita e para a esquerda ao mesmo tempo”, escreveu um dos tradutores, o Caio Philipi. Outro tradutor, o Patrick Barboza, observou que um software de tradução não poderia ser muito criativo ao traduzir Bartleby, pois faz “a tradução com base na palavra e não no contexto”. O Google Tradutor propõe: “Eu preferiria não”. O Patrick, que é cego, desejou reivindicar a tradução em contexto, o que me deixa confuso e feliz. Afinal, no contexto da escola e depois da ocupação, a leitura do clássico feita por esses alunos da terceira série do ensino médio responde a que contexto de família, de cidade, de escola, de país, de gramática, de tradução? Tradutores amadores, que paixão moveu cada um? O trabalho com a leitura do texto literário, na inscrição de cada um no texto, é tradução infinita, como o trabalho de Bartleby, no escritório, foi repetir a frase que, a cada vez repetida, “abole o termo sobre o qual incide e que ela recusa, mas também o outro termo que parecia preservar e que se torna impossível”, no modo como a pensou Deleuze. Tradução impossível, a frase de Bartleby produziu tradutores improváveis que, desde a escola, a querem estrangeira e por vir, na iminência de serem lançadas pela janela ou jogadas no lixo, pois a tradução original não vai chegar.

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As traduções foram produzidas por estudantes das turmas 2304 e 2308, da terceira série do ensino médio do Colégio Pedro II, Campus Realengo II, em abril e maio de 2017.

PIXO PIXEL POESIA, parte I

1. Algumas formas da poesia contemporânea procuram não somente extrapolar o livro como destino do poema, como também produzir formas para o poema para as quais o livro se torna impensável. As ruas, os muros, as praças e as redes digitais transformam-se no suporte ou no veículo do poema, e as experimentações de uma série de poetas brasileiros têm feito do espaço público das cidades lugar de poesia.

2. Assim, as projeções de poemas em código Morse na fachada do Museu de Arte do Rio, realizadas por Renato Rezende (SOS Poesia, 2015): vídeocatálogo.

3. Ou ainda as pichações fotografadas por Alberto Pucheu nos muros do Rio de Janeiro e de outras cidades do Brasil e da Europa (Palavras, 2011-2014): vídeo-poema & entrevista.

4. Ou então a instalação-web de poemas sobre o mapa da cidade de Vitória, por Tazio Zambi (cerco, 2013): site.

5. Ou mesmo o aplicativo de poemas da Gab Marcondes, feito junto com Bruno Vianna (poemapps, 2012): site.

6. São quatro exemplos de como a poesia tem ocupado as cidades em performances irredutíveis à página.

7. A oficina PIXO PIXEL POESIA foi concebida por Luiz Guilherme Barbosa, e produzida em parceria com a Raquel Menezes, editora da Oficina: site.

8. Realizada pela primeira vez na Primavera Literária do Rio de Janeiro, no Palácio do Catete, a oficina produziu 12 textos, pixos íntimos, caneta preta sobre papel, e a caligrafia experimentada.

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Ana Hortência

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Ludmila Müller

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Jessica di Chiara

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Juliana Souza do Rego

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Yassu Noguchi

 

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Bruno Domingues 

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Gabriel Lanhas

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Elisa Simoni

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Yolanda Soares

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Virgínia Egito

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Monique Nix

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Sidney Amandulo

 

 

 

Arte & ponto (Homenagem a Regina Silveira)

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Regina Silveira

No meio de uma revista de palavras cruzadas, lançada em agosto de 2016, uma página composta por Regina Silveira. O projeto da Ikrek Edições em parceria com a revista A Recreativa deu no que deu: os dois grupos de escritores da Oficina Ato Zero desobedeceram os pontinhos da página-de-artista & compusemos três novas páginas. Eu, que encomendei cinco exemplares da revista com a página da Regina Silveira, ganhei três outros exemplares dos escritores da Oficina, multiplicando presente com a graça de graça dos presentes. Arte, morte, marte, até se apagarem os pontos & ponto final. Exercício de desaparecimento, jogo do jogo, um aceno, de uma oficina literária na escola, ao mundo da arte quando ele se propõe, barato, a circular pelas bancas de jornal.

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Fala, coisa! (Quatro homenagens a Francis Ponge)

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Jean Dubuffet, Retrato de Francis Ponge, 1947

Tudo começou, dessa vez, com a Missão Dois Reais: cada escritor recebeu uma nota de dois reais e a missão de comprar um objeto qualquer desde que na coisa comprada houvesse texto impresso e a coisa fosse comprada com até dois reais. Era preciso levar a coisa para a escola acompanhada do troco, se houvesse, e da nota fiscal, se houvesse. E assim cada escritor produziu sua coisa textual, cada objeto escolhido, lápis cola copo tatuagem, foi transcrito, e a coisa transcrita deu nessas coisas textuais. Código de barras, local de fabricação, registro em agência reguladora, recomendações de uso, uma série, enfim, de gêneros textuais guardados invisíveis nas coisas banais e baratas, o que o texto da coisa diz de um mundo em que a coisa e a mercadoria mal divergem? São homenagens a Francis Ponge.

lápis

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Bruna Gonçalves

cola

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Mariana Batista

copo

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Mariana Albuquerque

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Danilo Sardinha

A letra, os corpos, a escola

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Roman Opalka (1930-2011)

Repetir a letra para corrigir o comportamento: um modelo para o castigo na escola. Repetir a frase no quadro-negro que diz o que não se deve repetir no comportamento: uma ética para o castigo na escola. As provas, que propõem ao estudante repetir a letra das aulas para provar o saber pela repetição, são, também elas, um modelo para a culpa na escola, e nas universidades. O estudante é culpado por não saber, e por isso o seu trabalho, ao contrário do trabalho de aprendizado do professor, não é remunerado. O ônus da prova é de quem acusa, mas não na escola, onde o ônus da prova é do aluno, acusado de não saber. A distopia segue a mesma: que a letra atue na moralização dos corpos. E alguma oficina literária, na escola, pode ser espaço heterotópico: que a letra atue no deslocamento dos corpos. Escrever até o fim, como Roman Opalka pintou com números ou como Armando Freitas Filho segue numerando seus poemas: um modo de deslocar os corpos, deslocá-los para, separados da letra, inscreverem, na letra, sua ausência. Escrever até o fim como um modo de deslocar os corpos para perto da morte, e a escrita acontecer. Caligrafar, assim, algum abandono, e debandar, assim, rumo à duração da letra, ao quanto se sustenta a numeração ou a repetição da letra antes que o corpo acabe. Ao se apropriarem do dispositivo do castigo, os escritores da Oficina Literária Ato Zero produziram a possibilidade de debandarem rumo ao texto sem fim.

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Bruna Gonçalves

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Mariana Freitas

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Danilo Sardinha

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Mariana Batista

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Mariana Albuquerque

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Gabriel Tomé

Um uniforme não é um alfabeto

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Traje masculino de verão concebido por Flavio de Carvalho, em 1956, para a Experiência n. 3

Se tem uma coisa que o poema é é que o poema não está. Não está na poesia, e mesmo a poesia não se nomeia quando ela parece acontecer. Se tem uma coisa que o uniforme é é que ele reproduz os corpos, e se tem uma coisa que o poema pode é a produção de corpos só de palavras, e se tem uma coisa que as palavras são é que elas são matéria de letra, e se tem uma coisa que a letra faz é que ela vem antes dos sentidos e das sensações, das divisões e das divergências, das categorias e dos catálogos, dos verbos e dos verbetes, dos gêneros e das genitálias. Um uniforme não é um alfabeto e é por isso que se tem uma coisa que o alfabeto pode é mudar os uniformes, e ele pode no mesmo dia em que veste outro uniforme atacar esse outro uniforme. Os comentários no Facebook sobre a alteração nas regras do uniforme do Colégio Pedro II são, agora, a língua com a qual escrever esses versos. Se tem uma coisa que uma oficina literária no colégio pode é cuidar dos usos da língua e foi o que fizeram os cinco escritores da Oficina Literária Ato Zero no dia vinte e um de setembro de dois mil e dezesseis.

estou falando numa boa com você jesus usava vestido
e não era perigoso ah comunistada
libera a bermuda me desculpe se me interpretou mal
eu não quis ser rude tudo está se perdendo
fim dos tempos mas cada um faz o que quer

Mariana Freitas

o pt é
a sua
mãe comunista
agora imagina
um monte
de relativistas
de saia
ela vai conseguir
dar aula
dentro do setor
mais totalitário
do estamento
burocrático?

Gabriel Tomé

o problema é o extremismo resumindo
nada mudou jesus tá voltando meus
parabéns ao colégio tudo agora é
preconceito a cultura muda conforme o
interesse da classe dominante tenho certeza
de que vão aceitar estão acabando
com a tradição qual o motivo
da polêmica bolsonaro presidente vai virar
uma putaria esse banheiro na hora
do recreio isso está passando do
limite vamos dar mais atenção às
paralisações tá com calor vai de
saia partiu usar calcinha

Mariana Batista

jesus usava
saia e
não era
perigoso também
acho me
desculpe se
interpretou mal
eu não
quis ser
rude que
putaria um
milhão de
aplausos pra
vocês amém

Danilo Sardinha

esse colégio pedro segundo tá de
sacanagem pra preservar a igualdade podia
colocar os alunos para dar aulas
e os professores para assistir muito
bem era tão bom quando as
crianças iam para a escola apenas
para estudar e aprender a disciplina
é isso que a esquerda está
fazendo com nossos colégios e com
nossos jovens sentem e chorem muito
bacana e a bermuda eu tive
aula de educação moral e cívica
no colégio pedro segundo aonde chegamos
amo meu colégio fiz da quinta
série ginasial ao terceiro ano do
antigo segundo grau no colégio pedro
segundo o ginásio na unidade engenho
novo e o segundo grau na
unidade centro esses dias encontrei minha
antiga professora de matemática

Mariana Albuquerque