Bartleby e seus tradutores

 

bartleby de zabala

Javier Zabala desenha Bartleby

Bárbaro burburinho. Uma professora me contou que jogou fora um livro do Bartleby que ela tinha porque a frase do Bartleby estava mal traduzida. Bartleby é literatura de ocupação. Quando Bartleby ocupa o escritório do advogado, permanecendo nele durante os finais de semana, o narrador se pergunta: “Mas o que ele poderia estar fazendo ali? – copiando?” O que fazem, afinal, os estudantes numa ocupação? A frase do Bartleby ecoa a recusa que as ocupações são, embora haja controvérsias. É, de todo modo, uma frase que enuncia a própria possibilidade da política, e, por isso mesmo, do exercício da cidadania numa sociedade democrática. Esse clássico norte-americano, contemporâneo a outro clássico seu conterrâneo, o conceito de “desobediência civil”, de Henry David Thoureau, pode ser lido como uma espécie de usina de linguagem democrática, já que o gesto bartlebyano produz sempre mais democracia onde, mesmo numa relação de trabalho organizada e instituída, ela (segundo se diz) já se faz presente. Bartleby, precursor das ocupações, encontra agora traduções inéditas para que nessa língua se possa falar mais ou ainda mais alguma coisa que ecoe um burburinho bárbaro como “I would prefer not to”. São traduções produzidas para o Instituto Pierre Menard, já que, por enquanto, não estamos nele. O Instituto Pierre Menard foi imaginado por Enrique Vila-Matas, em Bartleby e companhia: “Instituto Pierre Menard, romance de Roberto Moretti, é ambientado num colégio em que ensinam a dizer ‘não’ a mais de mil propostas, desde a mais disparatada até a mais atraente e difícil de se recusar”. Não foram poucos os alunos que me perguntaram o que aconteceria se eles preferissem não fazer a tradução que propus. Não fui eu quem disse o que aconteceria. Kafka inventou os seus precursores, Bartleby inventará os seus tradutores. “Traduzir é como olhar para a direita e para a esquerda ao mesmo tempo”, escreveu um dos tradutores, o Caio Philipi. Outro tradutor, o Patrick Barboza, observou que um software de tradução não poderia ser muito criativo ao traduzir Bartleby, pois faz “a tradução com base na palavra e não no contexto”. O Google Tradutor propõe: “Eu preferiria não”. O Patrick, que é cego, desejou reivindicar a tradução em contexto, o que me deixa confuso e feliz. Afinal, no contexto da escola e depois da ocupação, a leitura do clássico feita por esses alunos da terceira série do ensino médio responde a que contexto de família, de cidade, de escola, de país, de gramática, de tradução? Tradutores amadores, que paixão moveu cada um? O trabalho com a leitura do texto literário, na inscrição de cada um no texto, é tradução infinita, como o trabalho de Bartleby, no escritório, foi repetir a frase que, a cada vez repetida, “abole o termo sobre o qual incide e que ela recusa, mas também o outro termo que parecia preservar e que se torna impossível”, no modo como a pensou Deleuze. Tradução impossível, a frase de Bartleby produziu tradutores improváveis que, desde a escola, a querem estrangeira e por vir, na iminência de serem lançadas pela janela ou jogadas no lixo, pois a tradução original não vai chegar.

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As traduções foram produzidas por estudantes das turmas 2304 e 2308, da terceira série do ensino médio do Colégio Pedro II, Campus Realengo II, em abril e maio de 2017.

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