Um cada que vira um mas ainda é cada

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A Mariana Freitas, uma das escritoras da Oficina Literária Ato Zero, compôs, em 2015, um receituário de poemas chamado LouCura. No texto que segue, ela relata a sua relação com a literatura, a Oficina e a composição do receituário.

“Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça./ Não veio o disparo nem a morte: a mauser se transformara num lápis.”

Estávamos lendo um conto do Murilo Rubião juntos – acho que foi a primeira vez que conseguimos reunir todos em uma Oficina esse ano. Gosto de ouvir as pessoas lendo. Gosto quando o Luiz despe o texto e nos conta coisas que parecem segredos que o autor só confia a amigos íntimos.

Quarta, dia 25/5/2016, por volta de 12h40min. Paramos a leitura para comentarmos o trecho, quando percebi que o motivo de ter começado a escrever estava bem ali: eu precisava de uma fuga.

Quando tinha uns 10 anos, reclamei com minha mãe que estava entediada, ela me sugeriu escrever alguma coisa. Nesse dia, fiz meu primeiro poema, que falava sobre o coqueiro que fica atrás da minha casa e sobre como nós conversávamos. Eu fugi de um dia chato em casa.

Depois disso vieram muitos outros textos. Decepções, descobertas, amores, críticas, declarações. E com o tempo a fuga se transformou em algo maior. Passei a me conhecer enquanto escrevia e a dizer tudo que não saía pela minha boca. Alívio é a palavra.

As palavras transbordavam de mim, via motivos para escrever em todos os lugares. Meus cadernos eram cheios de textos inacabados, ideias para desenvolver, frases para analisar, mas tudo em segredo. Como se tudo isso que explodia em mim fosse uma vergonha.

Até que conheci um amigo que também escrevia. O alívio se tornou prazer. Trocamos muitas cartas com nossos textos. Eu amava ler as coisas que ele me enviava, e ficava feliz quando ele era tocado pela minha poesia. Foi a primeira pessoa com quem compartilhei de verdade o que escrevia.

Em 2015, no meu primeiro ano do ensino médio, fiquei sabendo de um processo de seleção pra uma bolsa em um projeto de iniciação científica em Língua Portuguesa, era algo envolvendo textos argumentativos. Pensei: “Por que não? Eu gosto de escrever, meus professores me elogiam e ainda vou ganhar uma bolsa por isso.” Enquanto respondia as perguntas junto com outros alunos, ouvi o Luiz Guilherme falar sobre outra bolsa, só que para iniciação artística: fiz também.

Eu fiz sem pretensões, afinal tinha um número considerável de alunos interessados e eu era só uma garota começando o primeiro ano. Fiquei surpresa quando recebi a notícia que tinha conseguido a bolsa nos dois projetos. Escolhi a iniciação artística, e acho que fui extremamente feliz nisso.

Lembro bem do meu primeiro dia na Oficina Ato Zero, escrevemos frases em nossos braços. Eu estava maravilhada e ao mesmo tempo nervosa pensando que poderia ser a menos habilidosa entre todos que estavam ali. Já minha mãe espalhou a notícia para a família e todos foram olhar a publicação que o Luiz colocou no blog sobre o que tínhamos feito.

A cada dia na Oficina tive uma aprendizagem nova, conheci um pouco mais dos alunos que antes eram estranhos que apenas estudavam no mesmo colégio que eu. Percebi que a questão não estava em ser a melhor do grupo, ninguém jamais será melhor entre nós, porque somos diferentes e isso fica muito claro em tudo que produzimos.

É incrível como uma palavra dita pelo Luiz ou por algum autor produz coisas tão diferentes em cada um. Cada um. Um cada que vira um, mas ainda é cada. E a Ato Zero foi o lugar que encontrei para me expressar, me aliviar, me divertir, me conhecer, às vezes fugir, aprender sobre literatura e alcançar outras pessoas. Me sinto muito bem quando leio textos que me tocam de alguma forma e espero poder fazer isso também.

Precisamos de alguém que nos incentive e nos diga que somos capazes, e o Luiz me ajudou nisso, dizendo sempre para tentarmos mesmo falhando. Quando recebi uma mensagem dele elogiando meu primeiro texto feito na Oficina, senti que eu não era tão ruim assim e que não queria mais esconder o que escrevia.

Foi por estar ligada ao aspecto terapêutico das palavras que meu projeto do ano passado tomou o rumo dos receituários. O Luiz pediu que apresentássemos um projeto no final do ano. Ele nos deu algumas sugestões, mas ficamos bem livres para fazermos o que desejássemos. Em meio a conversas sobre médicos escritores e sobre minha dúvida entre cursar Medicina ou Letras, tive a ideia de receitar poesia a pessoas com problemas, problemas que presencio facilmente no dia a dia.

Confesso que tive dificuldade de escrever certas receitas, mas foi ótimo parar e refletir sobre essas questões e ver que muitas não possuem soluções imediatas, são situações que fazem parte da vida e a poesia pode ser um amparo. Poesia que, muitas vezes, está escondida em nós, e só precisa de uma oportunidade para se manifestar.

Ainda não decidi se quero ser médica ou professora. Talvez não seja nenhuma das duas coisas. Ou as duas. Quem vai saber? Mas as incertezas têm me proporcionado muito mais que respostas, têm me proporcionado belas experiências. Quero continuar escrevendo, tocando pessoas e conhecendo-as, sendo abraçada pelas palavras e aprendendo tudo o que puder.

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