Algo sobre literatura

Gabriela Almeida, uma das escritoras da Oficina Literária Ato Zero, relata, nesse texto, a história de sua relação com a literatura, desde a infância até hoje, a adolescência. Esse foi um dos objetos textuais que foram lidos para o público presente na mesa organizada pela Escola Brasileira de Psicanálise no dia 13 de junho deste ano, da qual tivemos a honra de participar.

textos curvos.pngEu sempre fui muito chegada às palavras. Não sei o que exatamente nos uniu, talvez amor à primeira vista. Só sei que, desde que aprendi a brincar com as letras, nós nunca mais nos separamos. E esse momento aconteceu bem cedo em minha vida, eu comecei a escrever aos cinco anos, quando produzi meus primeiros textos. Quer dizer, eu já inventava histórias antes disso. Eu sempre gostei de histórias. E de palavras.

Lembro de várias noites em que, antes de dormir, meus pais liam pra mim. Havia vezes em que eram gibis da Turma da Mônica, outras em que eram fábulas do famoso livrão, e também tinha aquelas histórias do livro que ficava numa caixa bem grande escondida dentro da cabeça do papai ou da mamãe. A minha casa sempre foi rodeada de livros e palavras, então não foi muito difícil me apaixonar por tudo isso — mas, sei lá, eu não sei se me apaixonaria por uma casa cheia de números —, ainda mais com tantos incentivos vindos de meus pais, ambos professores de língua portuguesa.

A primeira coisa que eu me lembro de efetivamente escrever, sozinha, foi um livrinho que montei com papéis grampeados, que narrava aventuras vividas por Gabi (eu) e Clifford (meu cachorro). Eu acho que tinha seis anos na época. Fiz uns desenhos pra ilustrar a historinha, e, quando terminei meu trabalho, dei continuidade à série Gabi e Clifford; deviam ser uns quatro livrinhos no total. Quando eu tinha nove anos, escrevi um texto pro concurso de repórteres mirins do Jornal O Globo e fui selecionada. Não sei por que, mas não fiquei surpresa, já esperava conseguir (como eu era convencida!). A partir daí, não só os meus pais, mas todo mundo começou a me reconhecer pela escrita, e (eu não sei como, deve ser algum tipo de mágica) até hoje as pessoas me chamam de “escritora” mesmo nunca tendo lido nenhuma linha sequer minha. Deve ser a minha mãe que fala pra elas.

Eu sempre gostei muito de histórias, como já disse. E pra mim, literatura era basicamente isso até o ano passado. Narrações. A poesia estava lá, mas eu tinha um pouco de… não sei ao certo, talvez medo? Poesia era uma coisa muito difícil. Tinha que ser poeta. Eu era escritora, escritor não é poeta; poeta tem que ver beleza nas coisas e saber transformar isso em poesia. Eu vivia na prosa, na linha contínua. E se caísse nos versos? O abismo no fim de cada frase não era o habitual. A poesia doía. Ficava feia em mim. Eu tinha vergonha da poesia, e era melhor ignorar sua existência do que ter que admitir que eu não dominava as palavras por completo. Porque essa era a verdade, minha relação com as letras não era tão plena quanto eu pensava.

E então veio a pausa.

“O tempo”, falando-se em linguagem de relacionamentos.

Em 2013, eu tive uma ideia “brilhante” para um livro. Brilhante entre aspas porque a definição dessa palavra é atualizada constantemente, em termos de ideias, principalmente na adolescência. Algo que parece brilhante quando se tem 13 anos vira estúpido aos 14, e assim sucessivamente. Mas, voltando ao assunto, eu tive uma ideia. E desenvolvi uma história; escrevi o prólogo e o primeiro capítulo, super entusiasmada. Só que nessa época eu estava sem computador, e era difícil ficar escrevendo tudo à mão, então resolvi esperar. E aí, no meu aniversário de 14 anos, em julho de 2014, ganhei um notebook. Digitei a parte da história que já tinha e fui começar a escrever.

E algo inesperado aconteceu: eu não conseguia escrever. Eu tentava, tentava, mas as palavras não saíam. Não entendia o motivo de tal desgraça, o porquê de minhas amigas me abandonarem subitamente. Fiquei muito triste e desmotivada, até de ler eu tinha parado… Não encontrava mais fôlego pra respirar as palavras. E nesse período parecia que tudo de errado estava acontecendo comigo, o que me deixava mais desmotivada.

Continuei assim por um bom tempo, até o início de 2015, quando houve a culminância de todas as coisas ruins pelas quais estava passando. Minha professora de português do nono ano me chamou pra fazer parte de uma equipe de produção de textos argumentativos que ela ia fazer, com bolsistas. Eu fui fazer a prova animada, disposta a ter qualquer distração possível que me tirasse do sofrimento. Mas, quando cheguei lá, descobri que havia uma outra seleção acontecendo, pra um projeto de literatura. Nossa, como eu fiquei feliz. Aquela era a minha chance de voltar pra casa, de achar minha razão novamente nas palavras. Então respondi correndo às perguntas da professora e parti logo pra redação do outro projeto. “Por que desejo escrever literatura?” era a pergunta, e havia umas vinte e cinco linhas para respondê-la. Eu só me lembro de ser a última a sair da sala e, alguns dias depois, receber uma mensagem do meu amigo Alexandre dizendo que eu tinha ficado em primeiro lugar.

E então começou. A primeira oficina quebrou minhas expectativas. Pelo visto, não ia rolar narração; teria que lidar com a tão temida poesia. E meu primeiro desafio foi pensar em alguma coisa pra escrever nas mãos… Eu surtei. Não estava preparada. Vi as outras pessoas tendo tantas ideias boas — principalmente esse meu amigo, Alexandre, que estava em dúvida entre três frases diferentes — e eu sem pensar em nada. Claro que, no fim das contas, eu acabei pensando, mas foi um desafio muito grande, e não gostei tanto do resultado.

Toda semana eu ia pra oficina. E cada dia era uma coisa diferente, todas muito interessantes e distintas da ideia de literatura que eu tinha antes. Descobri que não é preciso contar uma história pra fazer literatura. Só é preciso ter desejo de escrever, desejo de transmitir sua arte para o mundo através das palavras. Não são só textos que compõem o que se chama de literatura: música, artes visuais e performances de todo tipo também fazem parte. O meu modo de encarar a própria arte mudou. E quanto mais eu ia às oficinas, mais eu gostava daquilo, mais eu escrevia, mais a minha visão se transformava, mais eu me aproximava do Alexandre, mais a minha vida ia se tornando diferente e mais eu me reconciliava com as palavras.

Chegou, então, o segundo semestre. Eu e Alexandre começamos a namorar. O professor passou uma proposta de trabalho final da oficina, que a gente deveria fazer usando o google ou o jornal impresso como meios de exploração. No começo, não gostei muito. Mas eu tinha que fazer alguma coisa, né. Então sentei no chão do meu quarto num domingo, com uma pilha de jornais no colo. Apertei o play do spotify numa playlist da minha banda nacional preferida, Engenheiros do Hawaii, e fiquei dando uma olhada no conteúdo que tinha em mãos. O jornal é uma coisa bem esquisita. Encontrei notícias de todo tipo (a maioria eram ruins), manchetes bizarras, muitas letras e muitos números.

Esse último elemento me aborreceu um pouco. Eu, particularmente, tenho um sério problema com os números — não sei o motivo, talvez seja só porque eles não são letras. E estava lá, observando o caderno de economia, quando começou a tocar “Números”, uma música que amo. Ela é uma crítica à obsessão da sociedade atual por esses elementos, que levam uma importância tão grande sem serem realmente importantes em muitos casos. A música corria em meus ouvidos enquanto eu fitava o papel, com raiva. Eu queria mudar aquilo. Eu não me importava com a economia, e não achava que merecesse um caderno inteiro de jornal (CHEIO DE NÚMEROS). E veio naturalmente: peguei canetas e fui riscando todos os números que estavam na página, desde a data até os gráficos econômicos. Ao fim, escrevi bem grande a primeira parte do refrão da música. “E eu, o que faço com esses números?”.

Aquilo foi libertador. Percebi que o jornal era meu, e poderia alterá-lo quantas vezes e como quisesse, o que se tornou meu projeto. Quando mostrei ao professor os jornais que tinha feito — que eram esses dos números, um com uma notícia feliz (da família que adotou uma criança que sofria maus-tratos), onde escrevi a segunda parte do refrão (“A medida de amar é amar sem medida”), e outro com várias manchetes coladas e um grande ponto de interrogação, com versos da música “3a do plural” —, ele os definiu como “clipes visuais” dos Engenheiros. Gostei bastante da ideia, o que me levou ao meu jornal mais importante.

Pensei o seguinte: o jornal representa o meu clipe. Posso transmitir o que eu quiser nessa TV, e boicotar todas as transmissões recorrentes. Olhei, olhei, olhei. O jornal não me agradava. Fiquei cansada de ver tanta informação manipulada, notícia trágica e, é claro, números, que decidi que não dava mais. Eu não queria mais jornal, não queria mais clipe. Eu ia tirar do ar. Sabe aquela imagem com várias cores que as televisões velhas exibiam quando estavam pifadas? Ela simbolizava exatamente o que eu queria. Pedi tinta guache pro professor e pintei meu jornal, tirei do ar tudo aquilo que não estava me agradando. Quando mostrei pro Alexandre, ele disse que estava tão lindo e inspirador que queria emoldurar. E o professor teve a mesma reação, com o acréscimo de comentários filosóficos sobre minha obra.

Bem, eu só queria dizer que amo literatura e que a oficina mudou definitivamente a minha vida como artista. Eu acho que nunca pensaria em boicotar um jornal, nem mesmo em me aventurar na poesia. E, caso fizesse, com certeza não teria tido tanto conforto e facilidade como tive, graças à oficina.

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