Contra o Estado de dicionário

augusto de campos

não (1990), Augusto de Campos

Já houve quem dissesse que as palavras habitam um reino surdo, onde, paralisadas, esperam ser escritas. Os poemas, ali, já existem, só que mudos, em estado de dicionário. Acontecimentos, afinidades, aniversários, incidentes pessoais, corpo, sentimento, cidades, natureza, infância, não haveria, de acordo com rumores já escritos, não haveria ainda, nessas coisas, poesia. Publicados, os poemas transformam-se e, a confirmar outros boatos, as palavras, quando ditas, começam a viver nesse dia. O leitor, que as lê, desterra-as, mais uma vez, do reino surdo, e pode escutá-las transformadas, em estado de poema. O poema lido, relido, treslido, corre o risco de voltar ao dicionário, como monumento da cultura. Pois foi contra o Estado de dicionário, contra o reino surdo das palavras, que, sem outra lei que não a que organiza o Estado de poema, a Oficina Ato Zero propôs-se a atualizar um jogo oulipiano, o S + 7, e, folheando vários dicionários, reescrever os versos de Drummond. A cada palavra assinada por Drummond, cada escritor buscou a sétima seguinte no dicionário que consultava: Houaiss, Aulete, Unesp. Era preciso usar o dicionário como uma máquina de sonhar, e a formulação barthesiana, assim pensamos, põe-se a funcionar contra o reino das palavras e em prol do estado de poema, que faz falar.

penetra surdamente na reinvenção dos palavrosos
lá estão os poéticos que esperam ser escriturísticos
estão paramentados, mas não há desestímulo
há calo e frevo no superintendente integral
ei-los sós e mugindo, em estafa de dicotiledôneo

Gabriel Tomé

penetra surdamente no reintroduzir dos paleontólogos
lá estão os problemáticos que esperam ser escrotos
estão paramécios, mas não há desestatização
há calombo e frevo na superlotação integrada
ei-los sós e mudos, em estadunidense de diclorobenzeno

Mariana Batista

penetra surdamente na reinstalação dos palcos
lá estão os poetas que esperam ser escriturais
estão paralíticos, mas não há desestatização
há calombo e frete na superioridade inata
ei-los sós e mudos, em Estado Novo de dicotomização

Danilo Sardinha

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