Gosto de fazer listas e mais ainda de desistir delas

Nathalie Quintane, a poeta do dia de oficina Ato Zero

Bianca de Oliveira, Gabriel Bustilho, Gabriela Almeida, Júlia Moura, Luysa Eduarda, Mariana Barcelos, Mariana Freitas, Paulo Santana, Síntique Vital, Ygor Macedo, o escritores das Observações a seguir, um pastiche das Observações de Nathalie Quintane, aquelas traduzidas por Carlito Azevedo e publicadas na revista Inimigo Rumor, abrindo o número 20 da revista, o último número da revista. Será preciso, como escreveu um dos escritores, será preciso desistir das listas, desistir das listas é mais gostoso ainda que fazê-las, será preciso desistir das listas como se desiste deste poema-lista, será preciso abandonar as listas, deixá-las ao léu na web, para, antes de chegar a desistir da próxima lista, poder fazer a próxima lista, pois desistir, aprendemos hoje com um dos escritores, desistir é condição do fazer, sem desistir da lista não é possível fazer outra lista, e as listas são infinitas naquilo que listam como são infinitas as listas que listam aquilo podem listar, assim como os poemas, os poemas são infinitos naquilo que dizem e em como o dizem assim como são infinitas as possibilidades de poemas que são infinitos naquilo que dizem e em como dizem.

OBSERVAÇÕES

Quando ando descalça chego a sentir uma sensação de alívio.

Até mesmo durante um engarrafamento, percebo que os sons do engarrafamento são um concerto musical.

Quando estou nervosa, eu mordo qualquer objeto que esteja segurando com a mão.

Quase sempre acordo com um galo cantando às sete da manhã, mas ele nunca se encontra na minha casa.

Se minhas unhas estão grandes, escrever se torna uma tarefa difícil.

Quando está muito frio, sinto a pele tatuada ficar mais sensível.

Um cheiro bom fica em minha memória por horas, pois tenho somente cerca de vinte por cento do olfato desenvolvido.

Quando me olho no espelho e fito meus olhos não me lembro dos olhos de ninguém.

Meu equilíbrio é mais inteligente que eu, principalmente quando há música no ambiente.

Quando grito muito, minha garganta fica seca.

Sempre quando gozo, emito sons pela garganta.

Se eu choro, sinto meus olhos arderem.

Ao andar pela rua, às vezes olho para os meus pés para evitar tropeçar.

Sempre que bebo algo muito gelado, minha cabeça dói.

Depois de cortar as unhas dos dedos da mão, torno-me incapaz de me coçar por vários dias.

Quando penso na respiração, automaticamente interrompo a respiração e depois passo a respirar lembrando que respiro.

Sinto prazer ao abrir a geladeira nos dias mais quentes do ano.

Escrevo um poema, posso ser quem eu quiser sem deixar de ser ninguém.

Ao final do dia, antes de dormir, meus pensamentos projetam um resumo do dia.

Quando digito um poema, sinto-me como um fumante sem cigarros.

Ao acordar sempre me culpo por não ter ido dormir mais cedo.

Quando me vejo diante de um espelho vejo aquilo que os meus olhos veem.

Sempre que um caminhão de lixo passa ao meu lado prendo a respiração.

A última parte do meu corpo a ser molhada, no banho, e a cabeça.

Às vezes, ao tirar uma foto junto com outras pessoas, esqueço de sorrir.

Quando estou em pé, não consigo distribuir o peso do corpo igualmente entre meus pés, então jogo o peso do corpo sobre a perna esquerda e o pé direito fica levemente mais para frente.

Quando estou pensando, seguro o lábio inferior da minha boca com o polegar e o indicador da mão esquerda.

Se escuto música quando estou junto com um amigo, o fone de ouvido deve estar apenas no ouvido do lado em que meu amigo não se encontra.

Para passar o tempo, mexo no pingente do meu cordão e apoio-o sobre meu nariz.

Quando recebo uma mensagem no celular, espero alguns segundos antes de lê-la, mesmo que o celular esteja aberto na conversa.

Quando minhas unhas estão grandes, minha boca anseia por elas, e meus dentes roem a parte branca, que fica na ponta.

Se me importo com algo, mas tenho que fingir o contrário, dou um leve bocejo com ar de indiferença.

Às vezes, quando prendo o cabelo bem no topo da cabeça, sinto um calafrio na nuca que faz meu corpo inteiro tremer por um segundo.

Quando passo rímel nos olhos, minha boca se abre em formato de “o”.

Quando vou tirar uma selfie, minha testa se enruga.

Só consigo estudar no meu quarto deitada de bruços sobre a cama, na direção contrária à que durmo.

Às vezes, sem nenhum motivo específico, começo a tamborilar os dedos.

Quando estou atrasada para um compromisso, sinto uma inexplicável vontade de fazer xixi.

Quando entro numa biblioteca, respiro bem fundo para poder sentir o cheiro dos livros.

Quando mordo o lábio inferior da boca, às vezes sangra.

Quando mordo a tampa da minha caneta, sinto um gosto salgado.

Quando visto a mochila, sempre a penduro no meu corpo começando pelo ombro direito.

Quando como, o garfo está sempre na mão direita, mas quando corto a carne troco a faca para a mão direita.

Meus óculos caem do meu rosto sempre que tento olhar para o chão.

Gosto de fazer listas, e mais ainda de desistir delas.

Poderia ficar horas desenhando círculos.

Odeio sentir cheiro de tinta de caneta.

Reconheço que estou adormecendo quando os pensamentos e os sonhos se confundem.

Quando acordo de repente, noto que estava dormindo com a boca aberta.

Quando preciso levar todos os livros didáticos para a escola, minhas costas doem.

Percebo que, mesmo que eu estude, não consigo tirar boas notas em física.

Detesto sentir minhas unhas passando sobre a superfície de uma toalha.

Quando bebo água, às vezes inflo as bochechas e molho o lábio inferior para uniformizar a umidade dos lábios.

Na sala de espelhos, eu sou duas escrevendo.

Olhei rapidamente para o espelho e achei que meu reflexo fosse outra pessoa.

Quando não tenho palavras para usar, invento.

Num dia de calor, quando as primeiras gotas da chuva caem sinto cheiro de terra molhada.

Sinto mais frio nos braços do que nas pernas.

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