A poesia gosta que eu esteja incompleta

oficina 2

Mais dois poemas, de Júlia Moura, que escreve “A poesia gosta que eu seja incompleta”, e Claudio Santos, com “Carne com batata”.

A poesia gosta que eu esteja incompleta

Eu chego
No conforto
No silêncio
O dia já foi cumprido
Mas nem metade passou
O caminho já, longo e rotineiro
As lembranças de vozes e sorrisos
Já passaram
E tudo que poderia me ocupar
Já foi
E ficou
Como as imagens confusas da janela do ônibus
Como as pessoas que me esbarram
E suas histórias
E quanto a rotina cansa de sufocar
E o vazio toma conta
Da casa
As palavras vêm se fazem donas
Saem
Do modo que acham melhor
Sem floreios rimas
Esse momento passa
Voltam as rotinas
Lembro dos cálculos
Exatidões que me perseguem
E a poesia que antes se impunha
Se esconde
Por completo, se faz de tímida
Agora estou ocupada, cheia talvez
A poesia gosta
Que eu esteja incompleta
Para preencher
Invadir
E então sair
E se mostrar
Pro mundo

Carne com batata

Carne com batata
faz com que eu
esteja aqui

na oficina, mas
o assunto é
carne com batata

Aquela gosma
que se desprende
da placenta da mãe

Aquela forma quadrúpede que
por meses se fez gorda
andando num pasto, com seus iguais

Já no ponto certo, abatida a bala
pronta para o corte, depois de escalpelada
embalada no plástico, feito de polímeros

projetado outrora por uma série de químicas
5 anos de faculdade para 3 horas de viagem
do campo ao mercado, minha carne portentosa

mercado que não lembro ao certo
mas foi lá que minha mãe comprou
juntamente com as batatas

que foram plantadas no campo
adubadas quimicamente, irrigadas incessantemente
até que fossem colhidas, lavadas, trazidas

por fim, só restou serem vendidas
para dona minha mãe
A noite tem seu cheiro

mas ontem eu só sentia
carne com batata
que por horas numa panela

fez-se apta ao consumo
Hierarquicamente os Santos
foram servidos

primeiro o patriarca depois o seu rebento
por último minha mãe
que preparou tudo mas não produziu nada

O constante subir e descer da mandíbula
triturava a carne, que corria pelo esôfago
em forma de papa triturada

No estômago a papa foi banhada por
líquidos enzimáticos, e nas outras
estruturas digestivas também

No intestino a absorção dos nutrientes que
através de um processo químico
vai gerar para o corpo energia

para pôr o ponto final.

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