Na sala de espelhos

detalhe do paulo

Não somente um poema não se basta, como também um poema não basta. O poeta repete que a arte existe porque a vida não basta, e se nem vida nem poema bastam então seria o caso de, ao escutar algum poema, assumir a tarefa de torná-lo insuficiente com outro poema, e outro, e outro, e outro, e outro. Escrever sob o impacto dos espelhos, porque pela primeira vez a oficina aconteceu numa sala de espelhos, que havia funcionado como sala de dança no Colégio Pedro II. Escrever sob o impacto dos espelhos, porque dessa vez a oficina homenageou a poeta Marília Garcia, que em 2014 publicou um livro que pôs o leitor de poesia em alerta para os poemas que vêm, o teste de resistores. Escrever sob o impacto dos espelhos, porque na antiga sala de dança, que preserva os espelhos que se refletem provavelmente ao infinito nas suas paredes paralelas, leram-se poemas da Marília Garcia e produziram-se poemas sob o impacto dos poemas da Marília Garcia. Escrever sob o impacto dos espelhos, porque, apesar de os espelhos não terem se estilhaçado, a cena da escrita era a sala de espelhos, e, no entanto, ninguém se olhava através dos espelhos, pois estavam todos muito ocupados, na sala de espelhos, com os poemas.

oficina

Foram vários os poemas acontecidos na oficina do dia 6 de maio, e aos poucos eles serão publicados, a começar por dois dos mais fortes, o do Paulo Santana, Meu namorado é cineasta, e o da Mariana Freitas, Oito.

Meu namorado é cineasta

acordo
engasgado com um poema, cumpro um ritual
– não há espaço para a poesia

ando na rua, pego um ônibus, vejo pessoas
pessoas falantes, sonolentas, arrumadas, bagunçadas
– será que elas têm poesia?
(na boca? na cabeça? na bolsa?)

chego no colégio cedo, vejo colegas preocupados
não por causa disso, poesia, mas pelo teste
que vai acontecer
a primeira aula não acontece, a professora de literatura está doente
– muita poesia tem efeito colateral?

o tempo passa, o teste chega, a ansiedade grita
finalmente escrevo
escrevo números pensados por outras pessoas
escrevo cálculos tão elaborados que são quase poesia
quase
– o que define poesia?

hora do recreio, dia de profissões
(quase) todos vestidos do que “vão ser quando crescer”
meu namorado é cineasta
minha amiga é cineasta
minha outra amiga é fã de música coreana
– há poetas entre médicos, jogadores de futebol, professores, artesãos?

aula seguinte de francês, lemos textos sobre acontecimentos inusitados
quebras de rotina que são como poesia
– é possível uma rotina com poesia?

no fim da aula, encontro meu namorado numa oficina de literatura
ele encontrou poesia, ele ouviu poesia, ele escreveu poesia
lembrei do poema que estava preso na garganta, ele volta a incomodar
– meu namorado é poesia?

almoço do dia: arroz, feijão, carne (sem batata) e conversas
conversas sobre aulas, sobre relacionamentos, sobre faculdade
não sobre poesia
– o que eu sei falar sobre poesia?

depois meu namorado diz que tem algo a me mostrar
o poema Navio Negreiro, do Castro Alves
começo a ler, até que percebo que são seis páginas e paro
esse aqui tem só três
– consigo fazer mais?

chegou a minha vez de fazer a oficina literária
dessa vez é numa sala de espelhos que já viu muitos dançarinos
acho que a literatura encontrou o seu lugar
– existe lugar certo para a poesia?

enquanto ouço meu professor ler poesia, escrevo um poema na cabeça
gosto do poema que ouço
e do efeito que as palavras carregadas pela voz suave têm em mim
– qual a diferença entre ler e ouvir um poema?

começo a escrever este poema
vermelho traduz o meu sangue
a mão que escreve é a mão da punheta
– é biologicamente possível gozar lendo um poema?

estou atrasado, preciso terminar este poema
todo poema tem seu fim
mas a poesia (ou não) está sempre por aí
ainda sinto um incômodo na garganta
o poema que estava (e está) entalado é outro
– como se livrar do peso de algo não escrito?

Oito

somos seis em uma sala
cada um com seu papel
em branco
tarde nublada
céu pronto para chorar
nós somos seis
seis infinitos
particulares
seis tentativas
seis erros
nós somos seis
prova de inglês mais tarde
cansaço nos olhos
nas costas
brigas com minha mãe
mas agora eu sou seis
juntos um amor
e enquanto escrevo
tentativa de escrever
nos tornamos oito
dois estavam perdidos
mas se acharam
acharam o lugar onde se acham
onde se sentem
me sentem
me sinto
mais viva
somos oito
em busca de palavras certas
olhando os espelhos
para reconhecermos a nós mesmos
sou oito
não
sou sete
ela acabou de levantar
foi
qual o seu nome?
não lembro
agora sou sete
esqueço do mundo lá fora
para passear pela minha mente
somos sete
sete posições diferentes
sete ideias
sete acertos
alguns já conseguiram
chegar
onde queriam
ainda caminho
meio insegura
afinal, onde
quero chegar?
acho que aqui
onde estou
onde
estamos
nós sete éramos seis
oito
depois sete
éramos tanta coisa
que pode ser difícil
de lembrar
agora, vejo que
tudo virou poesia
a única coisa que se vê
é o silêncio
cheio de gritos
cheio de mim
e deles
cheio de nós
somos seis
o Paulo foi embora
somos quatro
as meninas disseram tchau
e antes que as pessoas acabem
digo que é hora de terminar
a procura já virou palavra
a borboleta pousou na folha

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2 comentários sobre “Na sala de espelhos

  1. Guilherme, que escrita maravilhosa! Separei esta inscrição: “acharam o lugar onde se acham /
    onde se sentem”. O poema do Paulo, lindo.

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