Os deitados: o humor perverso das capas do Meia Hora

Tem algumas ideias de aula que quem já foi meu aluno ou estagiário certamente conhece e se lembra. O ritual de quando um escritor desaparece deste mundo e a aula seguinte à sua morte se torna, pelo menos no começo, uma homenagem póstuma, com a leitura de alguma de suas obras. É o que vai acontecer nessa sexta, dia 17, com o Eduardo Galeano e o Gunter Grass, por exemplo. E foi o que já aconteceu nesse ano com o Herberto Helder. Depois de ler um poema dele, uma aluna observou que parecia um texto muito bugado. (A poesia, um bug da língua.) Essas leituras me comovem muito, sempre, pois realmente, com o tempo, passei a encará-las como um ritual de despedida, mais do que como um gesto de divulgação (não sou publicitário, afinal) da obra. É como se cada poema, cada texto recém-póstumo lido, já tivesse sido escrito para ser uma espécie de discurso de velório: o trabalho do luto opera assim em aula, em ato, e a dimensão da cultura viva, aquela sobre a qual os currículos escolares silenciam, se experimenta à escuta adolescente.

Outra ideia de aula a que recorro com frequência é aquela na qual as análises linguísticas se fazem com base na leitura das capas dos jornais do próprio dia da aula. Passo numa banca de jornal qualquer próxima à escola, antes de as aulas começarem, e faço o pedido que espanta e alegra o jornaleiro: Me vê o Meia Hora, o Expresso, o Extra, O Dia e O Globo! Geralmente sem entender a minha suposta ânsia pela leitura dos jornais, o jornaleiro logo se sente à vontade, meu íntimo, afinal supostamente gostamos tanto de jornais, então ele me dá notícias sobre o clima, que tem feito calor apesar do frescor da manhã, que há tantas décadas aquela banca abre tão cedo, que a cidade anda muito violenta etc. E foram assim as aulas dessa segunda-feira, em três turmas do Colégio Pedro II.

As capas do Meia Hora sempre chamam os olhares rápidos e histéricos que querem logo comentar o resultado do jogo de futebol, as consequências de alguma decisão política, a discrepância no preço dos jornais (durante a semana, dos cinco jornais de grande circulação da cidade, controlados por apenas duas empresas de comunicação, o preço de capa varia de R$0,60 a R$3,00). E é durante as aulas que a aula se faz, com base nas notícias que mais interessem à turma, como foi o caso dessa chamada de capa do Meia Hora:

meia hora

E logo começamos a perceber, pouco a pouco, que o humor produzido pela frase principal da chamada não era tão evidente para os leitores em aula, embora todos tivessem rido. Não que tenham rido em falso, mas é possível que tenham rido da situação e do obsceno que ela inclui. E logo começamos a perceber ainda mais que a frase, composta por duas orações, apresenta uma primeira oração em linguagem denotativa, com uma estrutura sintática de sujeito-verbo-complemento, um verbo de ação cujo sujeito é agente, cujo complemento é paciente, ao passo que a segunda oração se constrói com duas camadas de sentido simultaneamente, explorando a ambiguidade do verbo vazar produzida pelo contexto linguístico. É que num sentido mais adequado ao contexto de enunciação (a capa de um jornal), os donos do bingo vazaram, ou seja, escaparam, fugiram, meteram o pé. Assim, não foram presos em flagrante pela PM.

Mas é o local da fuga que propicia a ambiguidade do verbo nessa frase: é como se, ao fugirem pelo banheiro, num lance típico de filmes de perseguição hollywoodianos (conforme notou uma aluna numa das aulas), os donos tivessem se transformado na sujeira, no excremento, na merda que vazamos pelos banheiros para os ralos e os vasos. O humor típico das capas do Meia Hora consiste em ridicularizar os suspeitos de cometerem crimes com base num jogo de palavras que seja provocado pelo próprio léxico da notícia (o banheiro, a fuga, logo: vazar). Pois então, num lance moralizador, tais manchetes regulam os valores do bem e do mal, da lei e do crime, da polícia e do bandido, estabelecendo, numa visão maniqueísta, limites claros entre tais posições. Algo semelhante ao que se pode ler noutra notícia de capa do mesmo jornal veiculada nessa semana:

meia hora 2

A estrutura sintática da frase é, num sentido amplo, a mesma que encontramos na notícia do fechamento do bingo: duas orações, ligadas por uma conjunção aditiva, sendo a primeira aquela que noticia o fato, e a segunda aquela que o interpreta, ridicularizando o acusado. De novo é o verbo, acelerar, que aceita a ambiguidade, agora motivada pelo nome do preso.

Pois é esse recurso, que justifica a ridicularização dos acusados pela polícia com base numa fronteira clara entre a lei e o crime, leia-se ente a polícia e o bandido, o bem e o mal, o que também justifica chamadas como a seguinte, também dessa semana:

meia hora 3

De quem nós estamos rindo agora? Da morte. Da morte de quatro, quatro não nomeados: bandidos, pessoas? A sua nomeação está suspensa. São fantasmas de linguagem, são adjetivos substantivados (os quatro não são substantivos). A substantivação do numeral, quatro, talvez se justifique pela caracterização que o verbo já confere, discursivamente, aos quatro: são quatro deitados. Assim como no caso da morte de Cláudia Ferreira da Silva, que era, a princípio, antes da comoção pública, para tais jornais, a arrastada. Os quatro deitados são assim representados pois o sujeito da oração é o bem, é a lei, é o Choque. O Choque não mata, não assassina, não erra: o Choque deita, faz deitar, põe no chão os corpos dos quatro. O sacrifício dos quatro justifica o sacrifício do tom sério, do registro formal, da linguagem pretensamente objetiva do jornalismo, no texto. O texto é sacrificado, e nós rimos disso. Rimos do sacrifício do texto. E o texto sacrificado justifica o sacrifício dos quatro, nem preciso abrir o jornal para saber: quatro jovens, quatro negros, quatro favelados, quatro homens.

Por isso me espantei com a revelação que foi a observação de um aluno sobre a manchete do bingo: por que o jornalista optou por utilizar um e, e não um mas: PM fecha bingo mas donos vazam pelo banheiro? Sobre fundo vermelho, já tínhamos a explicação: Polícia acerta em cheio. Bingo! Mas o bingo da polícia aqui, de acordo com o discurso de capa, não está em oferecer punição aos donos, ou em prendê-los, ou em flagrá-lo. O bingo da polícia (e do jornal, e dos seus leitores) está em pôr em ridículo os donos, está, portanto, em escrachá-los, linchá-los (discursivamente), torná-los merda (discursivamente), tirar-lhes a dignidade (discursivamente, ou seja, de facto), a humanidade, qualquer coisa que afinal, já que cometem crimes, afinal, se rimos desse discurso, concordamos que já não têm.

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