“quando o romance for expulso de suas almas”

Na tradução por José Baltazar Pereira Júnior de Hard Times, do Charles Dickens, publicada pela Boitempo no final de 2014, lemos, de um lado, aquela defesa, pelo narrador, do cotidiano de pessoas comuns entendido como processo de representação suficiente para dar conta de momentos altos da vida (tal como propõe Auerbach em diversos de seus ensaios sobre a constituição da literatura do Ocidente), e, de outro lado, o valor ambíguo do “romance” entendido como recurso de resistência à “existência nua” (“a bare existence“), sem o qual o burguês ou certo burguês encontra-se diante de uma “Realidade sanguinária”. Ambíguo porque é como se o romance (e o que, em Tempos difíceis, ele representa de resistência da imaginação num mundo governado pelos “Fatos”) protegesse tanto os pobres quanto os burgueses uns dos outros e, ao mesmo tempo, desse a conhecer o mínimo de uns aos outros ao representar, imaginativamente, “uma lembrança sagrada” “numa rua ordinária”.

Essa cena não passou de uma despedida apressada numa rua ordinária e, ainda assim, foi uma lembrança sagrada para aquelas duas pessoas comuns. Economistas utilitaristas, esqueletos de professores, comissários dos fatos, infiéis afetados e extenuados, tagarelas de muitos credos gastos, tereis sempre os pobres entre vós. Cultivai neles, enquanto é tempo, as máximas graças da imaginação e dos afetos, para adornar-lhes a vida que tanto precisa de adornos; ou, no dia de vosso triunfo, quando o romance for expulso de suas almas, e eles se encontrarem face a face com a existência nua, a Realidade tornar-se-á sanguinária, e dará cabo de vós.

It was but a hurried parting in a common street, yet it was a sacred remembrance to these two common people. Utilitarian economists, skeletons of schoolmasters, Commissioners of Fact, genteel and used-up infidels, gabblers of many little dog’s-eared creeds, the poor you will have always with you. Cultivate in them, while there is yet time, the utmost graces of the fancies and affections, to adorn their lives so much in need of ornament; or, in the day of your triumph, when romance is utterly driven out of their souls, and they and a bare existence stand face to face, Reality will take a wolfish turn, and make an end of you.

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