“Pq algumas frases começam com letra minuscula?”

Poema de A Morte sem Mestre (2014), de Herberto Helder

Uma aluna por inbox:

Professor

Pq algumas frases começam com letra minuscula?

Tipo desse que vc postou

E eu, empolgadinho no domingo:

Antes de tudo, é um poema, foi publicado num livro de poemas. No Brasil, por exemplo, a partir do Modernismo, a partir de meados da década de 1920, os poetas começaram a experimentar essa liberdade em relação à norma-padrão. O Herberto Helder é português, começou a publicar na década de 1950, então ele já herdou essa liberdade das gerações anteriores. E aí cada poeta vai utilizar as minúsculas, por exemplo, com um sentido diferente. Esse poema do Herberto Helder que postei inicia com a conjunção “e”, como se o poema já fosse parte de uma frase que tivesse começado antes, antes do próprio poema, ou como se ele emergisse, irrompesse, num susto, do silêncio que antecede a leitura do poema. E de fato ele performatiza a produção manuscrita do poema, o poema feito antes do poema publicado, feito à caneta, antes de virar texto impresso na página: “a caneta esferográfica na mão”, a gente imagina. Então, nesse caso, é como se a letra minúscula fosse um indício do gesto do poeta ao escrever o poema, uma marca, o (im)próprio gesto do autor.

Essa semana um aluno comentou em sala que, a princípio, poemas em versos livres são mais chatos que poemas em versos metrificados. E eu observei que seria preciso lembrar que o poema em verso livre imanta cada sílaba de intencionalidade (mesmo que o poeta não o saiba), da primeira à última do poema, e não somente as últimas sílabas de cada verso, como no caso do poema em versos regulares; além do que não são somente as semelhanças silábicas que organizam o poema em verso livre, mas também ou principalmente as dissonâncias silábicas. É como se cada sílaba anunciasse uma rima em qualquer outro ponto do poema, e mesmo que a rima não venha, o seu anúncio torna a leitura do poema uma experiência de escuta silábica que nos torna mais falantes de nossa língua do que antes do poema. Seria possível pensar, nos termos que o filósofo Giorgio Agamben utiliza para tratar do que ele chama de institutos do poema, a rima que vem, ou o fim da sílaba. Para assim escutar no verso livre, nos termos que outro pensador cunhou, o Roland Barthes, para assim escutar o grão da voz. É como se o poema em verso livre fosse uma explosão do poema em verso metrificado, ele explode o fim do verso metrificado e compõe o poema apenas com essas ruínas, deixando a retórica sobrante do verso metrificado de fora.

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