Os livros do século XIX

A Torre Eiffel em construção, em 15 de maio de 1888

O século XIX foi o século que Balzac e Stendhal retrataram, Flaubert criticou e Zola procurou lançar de vez na crise. É o século em que a língua russa ingressou na literatura do Ocidente: Dostoiévski e Tolstói, Tchékhov e Turguêniev, Leskóv, Púchkin, Gógol. O século em que as mulheres lançaram as cartas do romance: as irmãs Brontë, Jane Austen, Mary Shelley. O século em que se inventou a narrativa policial: Allan Poe e seu detetive Dupin, depois Conan Doyle e seu popular Sherlock Holmes. E, ao final, a ciência foi convidada a projetar futuros mirabolantes com Jules Verne. Histórias de mistério, terror, também há, de novo com Poe, mas também com E. T. A. Hoffmann. Ao fim do século, um vampiro assombra os livros, com Bram Stoker e seu Drácula. Uma baleia mudando a vida de um homem, Melville fez assim com Moby Dick, e ainda inventou um homem que preferia não seguir ordens, o tal do Bartleby. E Henry James, que escreveu tanto, e tão bem quanto Machado de Assis, que inventou a Capitu e o Brás Cubas, e enigmas que parecem explicar o Brasil para sempre. E, quase sempre exilado de sua terra, Eça de Queirós a reviveu pelos livros que fez. Foi o século em que Marx concebeu o comunismo e Bakunin o anarquismo. O século em que Nietzsche assassinou Deus a marteladas e Hegel buscou conceder à história o protagonismo do Espírito. O século em que os macacos tornaram-se mais próximos e nos vimos como animais através de Darwin. O século em que Baudelaire pôs pelo avesso a poesia, Mallarmé quis que ela, sem dizer nada, desvendasse tudo, e Rimbaud, à procura de uma língua, tornou-se comerciante na África e abandonou a poesia. E um uruguaio francês escreveu coisas terríveis sobre o homem, e tão lindas: Lautréamont. O século em que Alice foi criada por um matemático que matematizou o próprio nome: Lewis Carroll. E foram escutar as histórias que não estavam nos livros, e os Irmãos Grimm tornaram-nas livro. E surgiram Pinóquio e o Mágico de Oz. O século em que o Fausto de Goethe é publicado, e no qual Keats esteve ao lado de Byron, Shelley, Coleridge, Wordsworth ampliando a língua inglesa. O século em que Hölderlin retraduziu a Grécia e enlouqueceu. E, no silêncio de um quarto longe dos poetas, Emily Dickinson escreveu sua obra secreta. E, nos longes da senzala nasceu um poeta negro para o Brasil, o Cruz e Sousa. E nos longes de Nova York foi buscar matéria de poesia um poeta estranho para o Brasil, o Sousândrade. E os meninos que estudavam Direito em São Paulo resolveram poetar e, com medo de amar, Álvares de Azevedo nos encontrou mais melancólicos. O século em que morrer no mar foi doce encontro com o infinito de Leopardi. E esse é só um começo. É. Foi um século e tanto.

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