Enquanto “enquanto” não é “while”

No jornal O Globo foi publicada hoje uma notícia redigida com base em jornais de língua inglesa: Viúvo acha bilhete que mulher deixou antes de morrer: ‘Nós vamos nos reencontrar’. Ela conta a história de um homem que, dias depois da morte de sua esposa, encontrou no meio do talão de cheques dela um bilhete endereçado a ele tranquilizando-o caso ela morresse. E, no corpo da notícia, no último parágrafo, a gente lê:

Sem título

A última frase apresenta uma estranha coerência: Jimmy só atribuirá “um significado especial” ao bilhete “enquanto” a família não souber quando o bilhete foi escrito? Não, mas parece que é justamente o contrário: não importa “quando o bilhete foi escrito”, ele sempre será especial. O leitor precisa alterar o sentido do próprio texto para poder compreendê-lo, para poder garantir a coerência.

Essa última frase que escrevi é contraditória. É como se eu tivesse dito: o leitor precisa alterar o texto para compreender o texto. Afinal de contas, o texto é o produto das palavras que o compõem ou é o produto da coerência resultante da interação dessas palavras com o leitor? Sob qualquer hipótese, vai ser preciso admitir que há um problema na construção textual da notícia. Ao menos um ruído. Pois, mesmo que se defenda a segunda hipótese, é preciso perceber que existe uma diferença entre o atual significado do conectivo “enquanto” no português brasileiro e o uso que dele é feito nesse texto do jornal. Essa diferença obriga o leitor a alterar o sentido conhecido da palavra “enquanto” para garantir a coerência do texto. Ou seja, exige um esforço interpretativo para a compreensão de uma frase a princípio coloquial, e por isso seria possível “melhorar” o texto. Melhorar nesse contexto, quer dizer, num contexto que prevê a rápida compreensão pelo leitor de um texto objetivo. A ambiguidade do termo “enquanto”, que tem um significado no português brasileiro e outro no texto do jornal, não contribui favoravelmente para a composição da notícia.

E por que isso aconteceu? O jornalista se distraiu? Mas que tipo de distração é essa que produz uma inovação semântica na língua? O leitor pode pensar então que esse “Enquanto” é provavelmente uma tradução malfeita do conectivo “While”, do inglês. Como, em inglês, o conectivo “while” pode tanto estabelecer relação de simultaneidade no tempo quanto de concessão (como “apesar de”, “embora” etc.), o tradutor automático (mesmo que tenha sido uma pessoa que traduziu, ela o fez “no automático”) não reconheceu o sentido que “while” apresenta nesse contexto, que é o de concessão.

Graças ao Google, é fácil comprovar a hipótese da tradução automática malfeita ao ler um trecho dessa notícia veiculada quatro dias antes no Huffington Post:

Sem título

Trata-se do original inglês do parágrafo que reproduzimos antes. O que não dá para pensar é apenas: é preciso melhorar as tecnologias de tradução automática. Pois essa tradução não representa apenas um erro de tradução, e sim uma intervenção na língua, capaz de, se repetida a longo prazo, alterar o campo semântico da palavra “Enquanto”. É só imaginar quantas pessoas leram a notícia e não se deram conta de que havia um problema de coerência na última frase, apenas ressignificaram ela de modo a torná-la coerente, internalizando um novo matiz semântico de “Enquanto” sem terem consciência disso. Ou mesmo é só lembrar que existe um jornalista traduzindo ou revisando essa notícia, assinada por “O Globo com sites internacionais”, e ele simplesmente não percebeu que aquele “Enquanto” podia ser “melhorado”. Erro do tradutor automático ou consequência do contato constante com a língua inglesa pelo jornalista?

Os processos globalizados de comunicação têm como efeito colateral esse tipo de reprodução dos sistemas linguísticos, e a via não costuma ser de mão dupla. Ou seja, é possível que em algum tempo o português brasileiro produza uma significação para a palavra “enquanto” semelhante à que se encontra no “while” do inglês, mas é improvável que algo de semelhante aconteça na direção contrária, pelo menos com força suficiente para interferir num termo tão incorporado à gramática (um conectivo) da língua inglesa.

Daí a dimensão político-econômica da variação linguística, nesse caso. E daí os efeitos da tecnologia (a tradução automática de textos) na produção textual e na gramática da língua. Cabe a nós buscar reconhecer com a maior exatidão tais processos, e isso inclui o saber da gramática e ao mesmo tempo os saberes dos outros campos cruzados acerca da globalização. Reconhecer a elasticidade da língua e da cultura brasileiras, a sua posição subalterna no processo de globalização, e enriquecer-se até mesmo ou principalmente com os traumas da cultura.

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