A Fuvest, ‘Raízes do Brasil’ e o ensino da literatura

A minha amiga Mariana, colega de sala de aula, chamou a atenção para uma questão da Fuvest 2015, que abordou as narrativas das Memórias de um sargento de milícias e das Memórias póstumas de Brás Cubas com o mesmo viés que trabalhamos nas aulas e numa prova do colégio, no ano passado. Qual seja: a aproximação dessas narrativas com as interpretações que Sérgio Buarque de Holanda desenvolve em Raízes do Brasil, relação que foi bastante explicitada depois que, em 1970, Antonio Candido publica um dos seus ensaios decisivos, “Dialética da malandragem”.

O interessante dessa coincidência é confirmar a suspeita de que o estudo da literatura na escola pode e deve sair de vez de um lugar-comum cronológico de estilos de época (conceito que ainda persiste nos currículos das melhores escolas) para explorar de vez os cruzamentos temáticos e anacrônicos entre, por exemplo, o romance do século XIX e o ensaísmo do século XX, ou ainda entre, por exemplo, o nosso romance naturalista e os testemunhos de quem, fora das cortes (imperiais ou jurídicas), nasceu nos cortiços (ou nas favelas) contemporâneos. O Cortiço e Cidade de Deus. E Quarto de despejo. E os limites do testemunho, e os limites éticos da representação do outro. Que, no limite, permeia o debate da redução da maioridade penal, da legalização da pena de morte ou mesmo de entorpecentes, do genocídio da juventude negra, que ocorre hoje no Brasil.

Enfim, o debate é extenso, segue também para o quanto o ENEM e os vestibulares têm força na organização dos currículos do ensino médio, e, enfim, enfim, seguem as questões, a da Fuvest:

E as nossas – mas sem as expectativas de respostas – elaboradas em parceria com a Manuella Carnaval, licencianda da UFRJ:

Texto 5
Antonio Candido defende a ideia de que Memórias de um sargento de milícias representa o primeiro malandro da literatura brasileira, pois o seu protagonista “pratica a astúcia pela astúcia”. Por isso, ele é “menos um ‘anti-herói’ do que uma criação que talvez possua traços de heróis populares”. Assim, seria possível ver em Leonardo a figuração do “homem cordial”, que caracteriza a sociabilidade popular brasileira segundo Sérgio Buarque de Holanda:

“Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o ‘homem cordial’. A lhaneza [afabilidade] no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar ‘boas maneiras’, civilidade. São antes expressões de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez.” (HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993. pp. 106-107.)

Questão 8. Com base na leitura do romance, explique por que o cortejo amoroso entre Leonardo-Pataca e Maria da hortaliça corresponde a “justamente o contrário da polidez”. (0,8 ponto)

Texto 6

“No domínio da linguística, para citar um exemplo, esse modo de ser [do homem cordial] parece refletir-se em nosso pendor acentuado para o emprego dos diminutivos. A terminação ‘inho’, aposta às palavras, serve para nos familiarizar mais com as pessoas ou os objetos e, ao mesmo tempo, para lhes dar relevo. É a maneira de fazê-los mais acessíveis aos sentidos e também de aproximá-los ao coração.” (HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993. p. 108.)

Questão 9. No romance de Manoel Antônio de Almeida, diversos personagens são caracterizados pelo sufixo formador de diminutivo: Leonardinho, Luisinha, Vidinha. Explique em que tais personagens diferem daqueles que não são caracterizados pelo diminutivo. (0,5 ponto)

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