O crítico literário Emílio Garrastazu Médici, o subversivo Rubem Fonseca: um tríptico

A entrevista de Leila Diniz, em dezembro de 1969, quando, diz-se, pela primeira vez uma mulher fala publicamente de sua vida sexual na sociedade brasileira, teria sido o estopim do Decreto-Lei 1.077, que instituiu a censura prévia e proibiu imediatamente a circulação de diversos livros no Brasil, entre eles Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca

I. O Decreto-Lei 1.077/70, seu trecho inicial, das melhores passagens da crítica literária no século finado, assinada pelo presidente Médici:

CONSIDERANDO que a Constituição da República, no artigo 153, §8 dispõe que não serão toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos costumes;

CONSIDERANDO que essa norma visa a proteger a instituição da família, preserva-lhe os valôres éticos e assegurar a formação sadia e digna da mocidade;

CONSIDERANDO, todavia, que algumas revistas fazem publicações obscenas e canais de televisão executam programas contrários à moral e aos bons costumes;

CONSIDERANDO que se tem generalizado a divulgação de livros que ofendem frontalmente à moral comum;

CONSIDERANDO que tais publicações e exteriorizações estimulam a licença, insinuam o amor livre e ameaçam destruir os valores morais da sociedade Brasileira;

CONSIDERANDO que o emprêgo dêsses meios de comunicação obedece a um plano subversivo, que põe em risco a segurança nacional.

II. O fragmento de “O campeonato”, conto de Rubem Fonseca do livro então censurado Feliz Ano Novo:

“Eu vou ganhar esse campeonato”, Palor disse depois de breve reflexão. “Você entende que todos os campeonatos buscam apenas preservar a nossa natureza animal? Não podemos deixar de ser um animal. Não somos um inseto! Somos um animal! Ouviram, apostadores? acordem, apostadores! Nós somos animais!”

Olhando para Palor, vi que ele sabia que estava acabando. Esse é o destino de todos, de sangue quente, saber que estão acabando.

“Estamos presenciando”, disse Palor, “o grande instante final da conjunção carnal. O formigueiro nos espera. Você me entende?”

Respondi que entendia.

“O amor está acabando, porque o amor só existe por sermos animais de sangue quente. E hoje estamos finalmente representando o último poético circo da alegria de foder, que tenta opor as vibrações do corpo à ordem e ao progresso, aos coadjuvantes psicoquímicos e aos eletrodomésticos. A vocação do ser humano é ser humano. Não é ser organizado, nem fértil, nem ter o estômago cheio nas horas certas, nem ter como ideal o paraíso de uma placenta infinita.”

Palor ganhou o campeonato. Efetuou quinze conjunções carnais, nas vinte e quatro horas, batendo o seu próprio recorde.

Rubem Fonseca em 2010, em fotografia de João Wainer (Folhapress)

III. O Rubem Fonseca ideólogo da ditadura civil-militar, conforme ensaio do Prof. Luis Alberto Alves, publicado no Dossiê Rubem Fonseca da revista Terceira Margem (PPG Ciência da Literatura/UFRJ):

Nessa mesma época, Rubem Fonseca, conforme dito antes, foi um dos mais destacados diretores do IPES (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais), exercendo cargos importantes na Direção Executiva – instância máxima do instituto –, além de ter acumulado outras funções de grande relevo, como os setores de publicação e divulgação de projetos. “Eu atuava na área de estudos e divulgação de projetos”, admite o escritor. Ao longo de toda a existência do instituto (1962 a 1972), Fonseca se ausentou por um curto espaço de tempo, não ficando totalmente claro o motivo de seu afastamento. Mas seu nome continuou a figurar em vários documentos, além de ter participado de reuniões da diretoria no ano de 1967, por exemplo. Sem contar que foi, em 26 de março de 1968, reconduzido à diretoria por seus pares em votação unânime. Se não bastasse, Fonseca também é um dos signatários da ata de dissolução do IPES, datada de 29 de março de 1972. A documentação existente (além de depoimentos de ilustres ipesianos) mostra que Rubem Fonseca teve uma participação muito ativa no IPES. Em todo esse período, revelou-se um zeloso dirigente, que se dedicou de corpo e alma à destituição do presidente João Goulart, além de ter colaborado, na qualidade de diretor do instituto, na elaboração do plano de ação do governo ditatorial de Castelo Branco. A redação final dos principais documentos do IPES ficava a cargo de Fonseca, daí a qualidade superior dos textos ressaltada por importantes ipesianos em depoimentos insuspeitos. Chama atenção como essa experiência de uma década tem sido relegada, ao passo que sua curta atuação como comissário de polícia, que durou pouco mais de um ano, é constantemente evocada para explicar enredos e personagens.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s