Drummond: verbo ser

De 1973 é o livro Menino antigo, o segundo volume da série Boitempo, onde se lê esse poema em prosa da corrosão do ser do menino que cresce:

VERBO SER

Que vai ser quando crescer? vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? Repito: ser, ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Não quero ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.

(ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa: volume único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983.)

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