A formação de Silviano Santiago

Fotografia de Maria Tereza Correia publicada em 2006 no Estado de Minas

Hoje pudemos ler na Folha de S. Paulo mais um texto de Silviano Santiago, “Anatomia da formação: literatura brasileira à luz do pós-colonialismo”, que desenvolve com muito maior clareza a ideia já apresentada em outro texto de 2012 publicado no Estado de São Paulo, “Formação e inserção”, que havia lido com desconfiança por conta da unilateralidade da posição do autor, algo como: o meu é que conta, o resto é paranoia e mistificação. Agora, com a visada autobiográfica, fica evidente que Silviano assume para si uma tarefa de mapeamento conceitual do campo da crítica de literatura brasileira ao dar um testemunho da sua formação e apontar para o esgotamento da formação crítica através da formação da literatura brasileira. Sua posição parece se explicitar no final do texto:

Dou-me conta do esgotamento dos vários, diferenciados e notáveis “discursos de formação” que constituíram o paradigma desenvolvimentista como tarefa prioritária no crescimento da jovem nação brasileira.
A exaustão do paradigma não o aliena. Assinala, antes, que ele está a perder a condição de prioritário. Novas condições materiais definem o novo milênio brasileiro. Elas passam a exigir outro feixe amplo e crítico de discursos afins e complementares, que constituirão novo paradigma – o da “inserção” do Brasil no conjunto das nações.
Tendo sido esclarecido (e não resolvido, obviamente) o modo como o sujeito brasileiro se automodelou como cidadão e acomodou nos trópicos a emancipação de uma sociedade jovem e moderna, delega-se hoje ao Estado nacional democrático papel e funções internacionais. Cosmopolita, a nação está habilitada a tomar assento no plenário do planeta. Automodelado, o sujeito discursivo – confessional, artístico ou científico – pode e deve dar-se ao luxo da crítica e da autocrítica em novo paradigma.

Penso mesmo que o (para mim impressionante) romance Mil rosas roubadas segue a trilha dessa revisão da formação de Silviano Santiago, como pude defender neste texto publicado no blog do Instituto Moreira Salles.

 

 

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