Poema em livro didático

Nessa semana folheei e li trechos de vários livros didáticos de Língua Portuguesa e Literatura para o Ensino Médio.

Me assustei ao encontrar coisas do tipo: o poema do José Paulo Paes sem os dois primeiros versos e com a pontuação esquizofrênica.

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Esse poema costuma aparecer quando se trata de selecionar paródias da “Canção do exílio”, que são por si sós um gênero textual à parte, divertido e inteligente, na poesia do Brasil. 

Entre as paródias posteriores ao Modernismo, esta é das mais significativas: uma redução estrutural de todas as paródias, paródia das paródias, no contexto da onda estruturalista nas universidades.

Daí outro livro decidiu organizar as estrofes em colunas, talvez para ficar mais “bonitinho”, certamente não para economizar espaço.

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Como se  não houvesse diferença à leitura. Nem comento as ilustrações (aquele sofazinho estampado na primeira imagem é de uma falta de imaginação…).

Apesar de acertar os versos, o segundo livro nem por isso acertou o título, que é “Canção de exílio facilitada”. Além de dar margem à exploração da semântica do artigo definido (e da ausência dele), é sobretudo a generalização do exílio pelo título que confere um tom pungente e pessimista ao poema, pois foi justamente no período de virada da década de 1970 que se multiplicaram os exilados políticos da ditadura. O poeta oferece como que um manual poético não apenas às paródias anteriores, como também aos exilados, que não deveriam se comover tanto com a falta do Brasil nos seus aspectos mais confortáveis (“papá”, “maná”, “sofá”) mas sustentados pela “sinhá”. Aos que deixaram o Brasil, que não repetissem a saudade romântica, ela própria alimento do slogan: “Ame-o ou deixe-o”.

O nacionalismo inscreve uma marca puramente negativa no poema de José Paulo Paes, e é pelo menos por isso que exijo que tratem bem o poema, para que a negatividade estética se inscreva na página e não prossiga recalcada na escola.

É um pouco essa vontade de recusar a experiência da leitura o que move intervenções gráficas como essa.

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O poema já surge aos olhos todo anotado, como se não houvesse leitura sem análise, como se a leitura não fosse condição de qualquer compreensão ou verificação da análise e, depois, da interpretação.

Ou ainda preserva-se, numa das coleções mais valorizadas entre professores, uma noção evolutiva da história literária, propondo-se o juízo estético com base em critérios temáticos.

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Enfim, das seis coleções que li, apenas uma mencionava a obra de Sousândrade, o que indica um desafio (entre tantos) aos professores que ousam (será isso mesmo?) abordá-la na escola.

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Como deu para notar, só me ative aos capítulos dedicados à poesia do Romantismo. E se me estendi em detalhes, foi porque são eles que fazem a diferença.

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