Cenas e cortes

Frame de Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore

Frame de Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore

A Internet, poucos anos atrás, não combinava tanto com vídeos. E quem tava por fora do circuito de cinemas da Zona Sul da cidade acabava sem ver a metade dos filmes do mundo, ou seja, aqueles que não são produzidos pelos estúdios de Hollywood e às vezes nem falam inglês.

Pois foi assim, sem Internet nem YouTube, que em 2004 e 2005 estive quase todos os fins de semana numa sala escura da Zona Sul da cidade, na ânsia de quem, analfabeto em filmes que não os da Sessão da Tarde ou os Titanic da vida, comia com os olhos as cenas e os cortes durante duas curtas horas. Estava no começo da graduação em Letras, e dividia a vida com uma estudante de arquitetura fascinada desde a infância por filmes de tudo que é tipo. Mas os filmes que mais me tocaram naquele momento eram de um tipo só: indefiníveis para mim.

Lembro de Má Educação, e depois Pedro Almodóvar se tornou lição de qualidade estética. Lembro de Dogville, e depois Lars von Trier se tornou o niilista ao qual teimo em ficar indiferente. Lembro de Elefante, e depois Gus van Sant se tornou o cineasta da juventude num mundo que a mata. Lembro, por fim, de Peixe Grande, e depois Tim Burton se tornou suvenir da infância que não tive, quando não aprendi a pescar grandes peixes a não ser dentro de mim mesmo.

Não sei o quanto esses filmes seguem sendo realmente indefiníveis para mim, mas eles me chegaram num momento da vida muito singular, quando tudo ainda parecia depender somente da minha grande vontade de arte para que as coisas (ah, as coisas, como isso é vago, e isso não diz muita coisa) mudassem. Hoje não. Hoje sou apaixonado pelo cinema do Karin Aïnouz. Pelo cinema do Eduardo Coutinho. Do Wim Wenders, do Werner Herzog. Filmes que machucam, que me deixam sem lugar para percebê-los ou falar, ou sem ter muito o que dizer além da dúvida: eu não sei se gostei, mas isso é foda!

Ou então sou marcado por alguns filmes singulares, como os do extremo oriente, tipo O arco, que narra a estranha história de um homem que vive no seu barco junto com uma linda jovem, que, no entanto, quer descobrir o mundo fora dessa ilha familiar. Um dia, ela toma um bote escondida, liga o motor e segue rumo ao porto, rumo ao mundo. Não tinha visto que ele amarrou o bote a uma corda, e a corda a seu pescoço.

Os filmes são como esse bote. Mas acho que o velho que amarra a corda a seu pescoço também sou eu: se simplesmente cortarmos essa corda, abandonamos o barco e, com ele, uma parte de nós. Resta saber se estamos dispostos a pagar o preço que a arte exige. E o cinema – cenas e cortes – pede o seu preço, e é caro, e é bom.

(Este texto foi provocado pelos alunos que integram o SAT, a Sociedade dos Amigos do Texto que inventamos no Colégio Pedro II de Realengo e se reúne para ver filmes, falar de livros etc.)

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