Defasagem linguística

bilhete da rosângelaNão vejo contradições em ensinar, na educação básica, a compreensão de que uma língua é constituída por inúmeras variedades, sendo uma delas eleita, por critérios sociais e não linguísticos, como a norma-padrão, a ser utilizada em contextos profissionais devido a convenções sociais. Aliás, é fundamental, para se compreender a norma-padrão como um aparelho ideológico, percebê-la como uma entre outras variedades gramaticalmente legítimas, sem que isso signifique abrir mão do conhecimento e do domínio da própria norma-padrão, inclusive como instrumento para transformar a realidade linguística do falante por meio de seu trabalho e de suas intervenções sociais (penso que um médico ou uma diarista podem ser tão eficazes no combate ao preconceito linguístico quanto um professor de ensino básico). Agora, restam poucas dúvidas de que este trabalho exige a atualização do professor quanto às gramáticas descritivas da norma-padrão, que têm sido publicadas nos últimos anos no Brasil, de modo que a norma-padrão não signifique, para o aluno, uma defasagem linguística, digamos assim. Ou seja, quanto menos atualizados estivermos, maior será a distância entre a experiência linguística dos alunos e a norma-padrão vigente. Se, ainda, nos dedicarmos ao ensino de alunos inseridos em grupos sociais muito pouco escolarizados (o que é a regra no ensino público), essa defasagem é praticamente inevitável e acaba revelando com maior força o caráter repressor e excludente da norma-padrão, por mais atualizada que esta seja. Assim, de fato, penso que já podemos começar a abrir mão da tradição gramatical normativa e nos apropriarmos dos olhares dos linguistas que têm produzido suas gramáticas da norma-padrão, com base em corpora consistentes e exaustivos. É um começo, e as práticas, como sempre, estão por se fazer.
(Escrito por solicitação da Bruna Alencar, licencianda no CAp-UFRJ.)

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