Crítica fantasmática

Tempo reencontradoA medida da literatura brasileira foi sempre difícil de estabelecer. A comparação com a literatura europeia foi por muito tempo a fórmula desta medição e a prova de sua inferioridade, até que surgissem autores em prosa e poesia capazes de dar a prova contrária, a começar por Machado de Assis. O reconhecimento das condições socio-históricas da formação nacional e sua influência sobre a produção artística pareceram o caminho para a compreensão da singularidade de uma literatura por vir, e que por fim apareceu ao longo do século XX graças a um elenco de “grandes autores nacionais”.

Quem estabeleceu parâmetros claros para a compreensão desta singularidade foi Antonio Candido, cuja obra de crítica literária se tornou a principal referência para acompanhar a história de nossa literatura através de uma aproximação à realidade brasileira e, em decorrência, da formulação de uma estética potente. Assim, no período de tempo entre a publicação de sua maior obra, a Formação da literatura brasileira, em 1959, e a do ensaio “Dialética da malandragem”, em 1970, enquanto elaborava sua análise das forças sociais atuantes na estrutura das obras literárias e consolidava a visão moderna da literatura lecionando em universidades de São Paulo, Antonio Candido viu surgir toda uma geração de excelentes críticos mais ou menos tributários de sua obra. Em meio a essa geração e, por diversos motivos, destacando-se dela encontrava-se Alexandre Eulalio, um intelectual carioca de formação autodidata que interveio no campo da crítica de maneira extremamente singular.

É possível notar, entre seus melhores colegas de geração, um modo de construir a obra de crítica procurando pôr em tensão as leituras de Antonio Candido com discursos altamente elaborados vindos de fora. Podemos lembrar a importância da obra de Jacques Derrida para Silviano Santiago, da Estilística para Davi Arrigucci Jr., ou do Formalismo Russo e da Estética da Recepção para Luiz Costa Lima. Com essa combinação, esses três críticos, e alguns outros, foram capazes de reler a poesia e a prosa brasileiras, principalmente as do Modernismo, derivando suas leituras em novas teorias para a literatura.

Criou-se assim um campo algo conflituoso de valoração das obras literárias – o que é prova de maturidade do campo – que hoje pode ser claramente verificado no discurso acerca da literatura contemporânea. Há tal desacordo quanto à situação desta literatura, ou mesmo aguda antipatia declarada por ela, que se pode até chegar a pensar num certo esgotamento de um projeto de crítica que busque uma visão sistemática da atividade literária.

Independentemente desta hipótese, a singularidade de Alexandre Eulalio em meio a sua geração parece dizer respeito a essa percepção de que a obra crítica pode se estruturar menos como um romance de formação e mais como um livro de poemas. Nesse sentido, digamos que esse crítico é autor de um “romance”, publicado em 1978 (A aventura brasileira de Blaise Cendrars), e de diversos “poemas”, ou seja, seus ensaios publicados aqui e ali, que foram reunidos em livros póstumos (o autor faleceu em 1988, aos 56 anos) – esgotados – e que são agora republicados no volume Tempo reencontrado: ensaios sobre arte e literatura, com organização e apresentação de Carlos Augusto Calil.

Chama a atenção a multiplicidade que atua nos textos. Por um lado, são diversas as formas críticas que neles encontramos, como retratos das obras de Cornelio Penna e Jorge de Lima – não à toa dois escritores que também foram artistas visuais; um ensaio panorâmico dedicado à arte brasileira no século XIX – no qual a catalogação de diversos artistas menos conhecidos é valorizada; e a série de ensaios dedicada a Esaú e Jacó, o romance de Machado, e/ou ao painel d’O Último Baile, nos quais se observa a argúcia de algumas análises de Eulalio.

Como se vê, além da forma, é muito constante a abordagem comparativa entre arte e literatura. Seu interesse parece recair sempre no que identifica como múltiplo, disperso ou transitório, até mesmo por enfatizar o momento histórico de transição entre o Império e a República, que se mostra decisivo em diversos momentos dos ensaios.

Assim é que esses signos aparecem em passagens como naquela em que destaca a atuação Eduard Hildebrandt, viajante europeu que retratou em aquarelas o Brasil de maneira singular:

Mas condições especiais de permanência não impediram contudo que sensibilidades incandescentes sintonizassem, em imediata captação intuitiva, certa verdade espectral do Brasil, invisível para outros tipos de temperamento. Foi o que Eduard Hildebrandt conseguiu como talvez mais ninguém: transfigurar, à primeira vista, cifras de uma realidade que o fascinado toque pictórico dele acusa de modo dramático. Na sequência admirável de aquarelas que realizou em Santos, no Rio de Janeiro, em Salvador e no Recife, entre março e outubro de 1844, sem que se dê nenhuma perda do registro objetivo, Hildebrandt produz documentos que se situam no limiar da visão. Cenas nas quais, como arrebatados num contínuo poderoso, paisagem e figurantes parecem integrar um mesmo perplexo torvelinho; a mais acesa grafia romântica define os recursos todos de que dispõe a fim de fazer chispear as intensas dissonâncias da atmosfera asfixiante.

Há um compromisso com a história no crítico e em seu objeto (“registro objetivo”) e, ao mesmo tempo, a afirmação de uma “verdade espectral”, que em tudo destoa das verdades estruturais que orientavam o discurso crítico no período de atuação de Alexandre Eulalio.

O caráter fantasmático identificado na presença de uma verdade histórica na obra, à parte o que possa haver de espiritual em sua visão, é o que resta desta crítica como diferença atuante. É este o recurso que, reafirmado hoje, pode impulsionar a presença de múltiplas vozes na crítica literária, cada uma justificada menos por linhagens críticas do que por derivas que, antes de tudo, são fruto da fala de outros, que, calados, permaneceriam espectros.

(Publicado no Jornal Rascunho, em fevereiro de 2013.)

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